A Cidade de Deus - Livro VII 14
Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna
Sobre as funções de Mercúrio e Marte
Mas não encontraram como referir Mercúrio e Marte a quaisquer partes do mundo e às obras de Deus que estão nos elementos; e por isso os puseram, ao menos, sobre as obras humanas, fazendo-os auxiliares no falar e na condução das guerras.
Ora, Mercúrio, se possui também o poder sobre a fala dos deuses, reina igualmente sobre o próprio rei dos deuses, se Júpiter, ao receber dele a faculdade da fala, também fala conforme seja do agrado dele permitir-lho: o que certamente é absurdo; mas, se é apenas o poder sobre a fala humana o que se entende lhe ser atribuído, então dizemos ser incrível que Júpiter houvesse condescendido em dar o seio não somente às crianças, mas também aos animais (donde foi cognominado Ruminus), e contudo não houvesse querido que o cuidado de nossa fala, pela qual superamos os animais, lhe pertencesse.
E assim a própria fala tanto pertence a Júpiter quanto é Mercúrio.
Mas, se a própria fala é dita ser Mercúrio, como o mostram aquelas coisas que dele se dizem por via de interpretação (pois se diz que foi chamado Mercúrio, isto é, aquele que corre no meio, porque a fala corre entre os homens; dizem também que os gregos o chamam Ἑρμῆς, porque a fala, ou interpretação, que certamente pertence à fala, é por eles chamada ἑρμηνεία; diz-se igualmente que ele preside aos pagamentos, porque a fala passa entre vendedores e compradores; também as asas que ele tem na cabeça e nos pés, dizem, significam que a fala passa alada pelo ar; é ainda chamado o mensageiro, porque por meio da fala todos os nossos pensamentos são expressos); se, portanto, a própria fala é Mercúrio, então, mesmo por confissão deles próprios, ele não é um deus.
Mas, quando fazem para si deuses de seres que nem sequer são demônios, orando a espíritos imundos, são possuídos por aqueles que não são deuses, mas demônios. De igual modo, porque não puderam achar para Marte nenhum elemento ou parte do mundo em que ele pudesse realizar algumas obras de natureza, de qualquer espécie que fossem, disseram que ele é o deus da guerra, a qual é uma obra dos homens, e não daquelas que por eles são consideradas desejáveis. Se, portanto, a Felicidade desse paz perpétua, Marte nada teria que fazer.
Mas, se a própria guerra é Marte, como a fala é Mercúrio, quem dera fosse tão verdadeiro que não houvesse guerra alguma para ser falsamente chamada deus, quanto é verdadeiro que ela não é um deus.