A Cidade de Deus - Livro VII 13
Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna
Que, ao se explicar o que é Saturno e o que é o Gênio, chega-se a isto: que ambos se mostram ser Júpiter
Mas por que falar mais deste Júpiter, com quem porventura todos os demais hão de ser identificados, de modo que, sendo ele tudo, a opinião acerca da existência de muitos deuses permaneça como mera opinião, vazia de toda verdade? E todos hão de ser referidos a ele, quer suas várias partes e potências sejam tidas como outros tantos deuses, quer o princípio da mente, que eles julgam estar difundido por todas as coisas, tenha recebido os nomes de muitos deuses das várias partes que a massa deste mundo visível combina em si mesma, e da múltipla administração da natureza. Pois o que é também Saturno? "Um dos principais deuses", diz ele, "que tem domínio sobre todas as semeaduras." Não ensina a exposição dos versos de Valério Sorano que Júpiter é o mundo, e que ele emite de si mesmo todas as sementes, e as recebe de volta em si mesmo?
É ele, portanto, com quem está o domínio de todas as semeaduras. O que é o Gênio? "É o deus que está posto sobre todas as coisas e tem o poder de gerá-las." A quem, senão ao mundo, creem eles possuir esse poder, ao qual se disse:
"Júpiter onipotente, progenitor e mãe?"
E quando, em outro lugar, ele diz que o Gênio é a alma racional de cada um, e que por isso existe separadamente em cada indivíduo, mas que a alma correspondente ao mundo é Deus, ele volta justamente a esta mesma coisa: a saber, que a própria alma do mundo há de ser tida como uma espécie de gênio universal. Isto, portanto, é o que ele chama Júpiter. Pois, se todo gênio é um deus, e a alma de todo homem é um gênio, segue-se que a alma de todo homem é um deus. Mas, se o próprio absurdo extremo compele até estes mesmos teólogos a recuarem disto, resta que chamam deus, por distinção especial e preeminente, àquele gênio que denominam alma do mundo, e por isso Júpiter.