A Cidade de Deus - Livro VII 11
Livro VII: que os "deuses seletos" da teologia civil não conferem a vida eterna
Sobre os sobrenomes de Júpiter, que se referem não a muitos deuses, mas a um só e mesmo deus
Chamaram-no Vitor, Invicto, Opítulo, Impulsor, Estator, Centípede, Supinal, Tigilo, Almo, Rumino, e outros nomes que seria longo enumerar. Mas esses sobrenomes deram-nos a um só deus por causa de diversas causas e poderes, sem contudo o obrigarem a ser, por causa de tantas coisas, outros tantos deuses.
Deram-lhe esses sobrenomes porque conquistou todas as coisas; porque por nenhuma foi conquistado; porque trouxe auxílio aos necessitados; porque tinha o poder de impelir, deter, firmar e lançar de costas; porque, como uma viga, mantinha unido e sustentava o mundo; porque nutria todas as coisas; porque, como o seio, alimentava os animais. Aqui percebemos algumas coisas grandes e algumas pequenas; e, contudo, é um só que se diz realizar todas elas.
Penso que as causas e os princípios das coisas, por causa dos quais julgaram que o único mundo são dois deuses, Júpiter e Jano, estão mais próximos entre si do que o manter unido o mundo e o dar o seio aos animais; e, contudo, por causa dessas duas obras tão distantes uma da outra, tanto em natureza quanto em dignidade, não houve necessidade alguma da existência de dois deuses, mas foi chamado um só Júpiter, por causa de uma chamado Tigilo, por causa da outra chamado Rumino.
Não quero dizer que o dar o seio aos animais lactentes pudesse caber antes a Juno do que a Júpiter, sobretudo quando havia a deusa Rumina para ajudá-la e servi-la nessa obra; pois penso que se pode responder que a própria Juno não é outra coisa senão Júpiter, segundo aqueles versos de Valério Sorano, onde se disse:
"Onipotente Jove, progenitor dos reis, e das coisas, e dos deuses, E igualmente mãe dos deuses", etc.
Por que, então, foi chamado Rumino, quando aqueles que porventura indagarem com mais diligência podem descobrir que ele é também aquela deusa Rumina?
Se, então, com razão se julgou indigno da majestade dos deuses que, numa só espiga de trigo, um deus tivesse o cuidado do nó e outro o da casca, quanto mais indigno dessa majestade é que uma só coisa, e da espécie mais ínfima, isto é, o dar o seio aos animais para que sejam alimentados, esteja sob o cuidado de dois deuses, um dos quais é o próprio Júpiter, o mesmíssimo rei de todas as coisas, que faz isso não junto com a própria esposa, mas com uma ignóbil Rumina (a não ser que talvez ele próprio seja Rumina, sendo Rumino para os machos e Rumina para as fêmeas)!
Eu certamente teria dito que se recusaram a aplicar a Júpiter um nome feminino, se ele não fosse designado nesses versos como "progenitor e mãe", e se eu não tivesse lido, entre outros sobrenomes seus, o de Pecúnia (dinheiro), que encontramos como deusa entre aquelas divindades menores, como já mencionei no quarto livro. Mas, visto que tanto os machos quanto as fêmeas têm dinheiro (pecuniam), por que não foi ele chamado tanto Pecúnio quanto Pecúnia? Isso é problema deles.