A Cidade de Deus - Livro VI 9

Livro VI: contra a teologia tripartida de Varrão e a incapacidade dos deuses de dar a vida feliz

Sobre os ofícios especiais dos deuses

E quanto a esses próprios ofícios dos deuses, distribuídos de modo tão mesquinho e tão minucioso, de sorte que dizem que cada um deve ser suplicado segundo a sua função específica (acerca dos quais falamos muito, embora não tudo o que para dizer a respeito disso), não são eles mais condizentes com a bufonaria dos mímicos do que com a majestade divina? Se alguém empregasse duas amas para o seu lactente, uma das quais não lhe desse senão alimento, e a outra senão bebida, assim como estes se valem de duas deusas para esse propósito, Educa e Potina, certamente pareceria insensato, e estaria fazendo em sua casa algo digno de um mímico.
Querem que Líber tenha sido assim chamado a partir de "libertação", porque por meio dele os varões, no momento da cópula, são libertados pela emissão da semente. Dizem também que Líbera (a mesma, em sua opinião, que Vênus) exerce a mesma função no caso das mulheres, porque dizem que estas igualmente emitem semente; e dizem também que, por essa razão, a mesma parte do homem e da mulher é colocada no templo: a do homem para Líber, e a da mulher para Líbera. A essas coisas acrescentam as mulheres consagradas a Líber, e o vinho para excitar a libido.
Assim, as Bacanais são celebradas com a máxima insânia, a respeito da qual o próprio Varrão confessa que tais coisas não seriam feitas pelos bacantes a não ser que suas mentes estivessem grandemente excitadas. Essas coisas, porém, mais tarde desagradaram a um senado mais ajuizado, e ele ordenou que fossem suspensas. Aqui, enfim, talvez tenham percebido quanto poder os espíritos imundos, quando tidos por deuses, exercem sobre as mentes dos homens. Essas coisas, certamente, não haviam de ser feitas nos teatros; pois ali eles representam, não delir am, ainda que ter deuses que se deleitam com tais representações seja muito semelhante ao delírio.
Mas que espécie de distinção é esta que ele faz entre o homem religioso e o supersticioso, dizendo que os deuses são temidos pelo homem supersticioso, mas reverenciados como pais pelo homem religioso, não temidos como inimigos; e que todos eles são tão bons que mais prontamente pouparão os ímpios do que ferirão um inocente?
E, contudo, ele nos diz que três deuses são designados como guardiões de uma mulher depois que ela deu à luz, para que o deus Silvano não entre e a moleste; e que, a fim de significar a presença desses protetores, três homens dão a volta pela casa durante a noite, e primeiro golpeiam o limiar com um machado, em seguida com um pilão, e na terceira vez o varrem com uma vassoura, para que, exibidos esses símbolos da agricultura, o deus Silvano seja impedido de entrar, porque nem as árvores são cortadas ou podadas sem um machado, nem o grão é moído sem um pilão, nem o cereal é amontoado sem uma vassoura.
Ora, a partir dessas três coisas foram nomeados três deuses: Intercidona, do corte feito pelo machado; Pilumno, do pilão; Deverra, da vassoura: por meio dos quais deuses guardiães a mulher que deu à luz é preservada contra o poder do deus Silvano. Assim, a guarda de deuses benévolos não prevaleceria contra a malícia de um deus malfazejo, a menos que fossem três contra um, e lutassem contra ele, por assim dizer, com os emblemas opostos do cultivo, ele que, sendo habitante dos bosques, é rude, horrível e inculto. É esta a inocência dos deuses? É esta a sua concórdia?
São estas as divindades que dão saúde às cidades, mais ridículas do que aquilo de que se ri nos teatros?
Quando um homem e uma mulher se unem, preside o deus Jugatino. Pois bem, que isto se tolere. Mas a esposa deve ser conduzida ao lar: invoca-se também o deus Domiduco. Para que ela esteja na casa, introduz-se o deus Domício. Para que permaneça com o marido, recorre-se à deusa Manturna. Que mais se requer? Poupe-se o pudor humano. Deixe-se que a concupiscência da carne e do sangue prossiga com o resto, respeitado o segredo do pudor. Por que se enche o quarto nupcial de uma multidão de divindades, quando até os padrinhos se retiraram?
E, demais, ele assim se enche, não para que, em consideração à sua presença, se preste maior atenção à castidade, mas para que, com a sua ajuda, a mulher, naturalmente do sexo mais fraco e trêmula com a novidade de sua situação, ceda mais prontamente a sua virgindade. Pois ali estão a deusa Virginiense, e o deus-pai Subigo, e a deusa-mãe Prema, e a deusa Pertunda, e Vênus, e Priapo. Que é isto? Se era absolutamente necessário que um homem, labutando nessa obra, fosse ajudado pelos deuses, não poderia algum deus ou deusa, sozinho, ter bastado?
Não bastava sozinha Vênus, da qual até se diz que recebeu o nome do fato de que, sem o seu poder, uma mulher não deixa de ser virgem? Se nos homens algum pudor que não nas divindades, não é o caso que, quando o casal crê que tantos deuses de um e outro sexo estão presentes e ocupados nessa obra, ficam de tal modo afetados pelo pudor que o homem se comove menos, e a mulher fica mais relutante?
E certamente, se a deusa Virginiense está presente para soltar o cinto da virgem, se o deus Subigo está presente para que a virgem seja posta sob o homem, se a deusa Prema está presente para que, tendo sido posta sob ele, seja mantida submetida e não se mova, que tem a deusa Pertunda a fazer ali? Que ela core de vergonha; que se retire. Que o próprio marido faça algo. É vergonhoso que qualquer outro, que não ele mesmo, faça aquilo de que ela tira o seu nome. Mas talvez ela seja tolerada porque se diz ser uma deusa, e não um deus.
Pois, se ela fosse tida por macho, e fosse chamada Pertundo, o marido reclamaria mais ajuda contra ele em defesa da castidade de sua esposa do que a mulher recém-parida contra Silvano. Mas por que estou dizendo isto, quando ali também está Priapo, um macho em excesso, sobre cujo membro imenso e disformíssimo se ordena que a noiva recém-casada se assente, segundo o mais honroso e mais religioso costume das matronas?
Que prossigam, e que tentem, com toda a sutileza de que sejam capazes, distinguir a teologia civil da fabulosa, as cidades dos teatros, os templos dos palcos, as coisas sagradas dos sacerdotes dos cantos dos poetas, como coisas honrosas distintas de coisas vis, coisas verídicas de falazes, graves de leves, sérias de ridículas, coisas desejáveis de coisas a serem rejeitadas: nós compreendemos o que eles fazem.
Eles estão cientes de que aquela teologia teatral e fabulosa pende da civil, e nela se reflete a partir dos cantos dos poetas como a partir de um espelho; e assim, tendo sido exposta à vista aquela teologia que não ousam condenar, atacam e censuram mais livremente aquela imagem dela, a fim de que os que percebem o que querem dizer detestem essa própria face de que aquilo é a imagem: face que, contudo, os próprios deuses, como que vendo-se no mesmo espelho, tanto amam, que melhor se em ambas quem e o que eles são.
Donde também compeliram os seus adoradores, com terríveis ordens, a consagrar-lhes as imundícies da teologia fabulosa, a pô-las entre as suas solenidades e a contá-las entre as coisas divinas; e assim mostraram-se a si mesmos mais manifestamente como espíritos imundíssimos, e fizeram daquela teologia teatral, rejeitada e reprovada, um membro e uma parte desta, por assim dizer, escolhida e aprovada teologia da cidade, de modo que, embora o todo seja vergonhoso e falso, e contenha em si deuses fictícios, uma parte dele está na literatura dos sacerdotes, e a outra nos cantos dos poetas.
Se ela pode ter outras partes, é outra questão. Por ora, penso, mostrei suficientemente, com base na divisão de Varrão, que a teologia da cidade e a do teatro pertencem a uma única teologia civil. Por isso, porque ambas são igualmente vergonhosas, absurdas, infames e falsas, longe esteja dos homens religiosos esperar a vida eterna de uma ou de outra.
Enfim, o próprio Varrão, em sua descrição e enumeração dos deuses, parte do momento da concepção de um homem. Ele inicia a série daqueles deuses que tomam conta do homem com Jano, leva-a até a morte do homem decrépito pela idade, e a encerra com a deusa Nênia, que é cantada nos funerais dos idosos. Depois disso, começa a dar conta dos outros deuses, cuja província não é o homem em si, mas os pertences do homem, como o alimento, o vestuário e tudo o que é necessário para esta vida; e, no caso de todos estes, ele explica qual é o ofício especial de cada um, e por que cada um deve ser suplicado.
Mas, com toda essa diligência escrupulosa e abrangente, ele nem provou a existência, nem sequer mencionou o nome, de algum deus de quem se deva buscar a vida eterna: o único objeto pelo qual somos cristãos.
Quem, então, é tão estúpido que não perceba que este homem, ao expor e abrir tão diligentemente a teologia civil, e ao exibir a sua semelhança com aquela teologia fabulosa, vergonhosa e infame, e também ao ensinar que aquela espécie fabulosa é igualmente uma parte desta outra, labutava por obter, nas mentes dos homens, um lugar para nenhuma outra senão aquela teologia natural que ele diz pertencer aos filósofos, com tal sutileza que censura a fabulosa e, não ousando censurar abertamente a civil, mostra o seu caráter censurável simplesmente exibindo-a; e assim, sendo ambas reprovadas pelo juízo dos homens de reta inteligência, a natural resta para ser escolhida?
Mas acerca disto, em seu próprio lugar, com a ajuda do verdadeiro Deus, teremos de discorrer mais diligentemente.