A Cidade de Deus - Livro VI 10

Livro VI: contra a teologia tripartida de Varrão e a incapacidade dos deuses de dar a vida feliz

Sobre a liberdade de Sêneca, que censurou a teologia civil com mais veemência do que Varrão censurou a fabulosa.

Aquela liberdade, em verdade, que faltou a este homem, de modo que não ousou censurar a teologia da cidade, que é muito semelhante à teatral, tão abertamente quanto censurou a própria teatral, foi possuída, embora não plenamente, ainda que em parte, por Aneu Sêneca, de quem temos algumas evidências para mostrar que floresceu nos tempos de nossos apóstolos. Em parte foi por ele possuída, repito, pois ele a possuía no escrever, mas não no viver. Pois naquele livro que escreveu contra a superstição, censurou com mais abundância e veemência aquela teologia civil e urbana do que Varrão a teatral e fabulosa.
Pois, ao falar acerca das imagens, ele diz: "Eles dedicam imagens dos sagrados e invioláveis imortais na mais vil e imóvel matéria. Dão-lhes a aparência de homem, de feras e de peixes, e alguns as fazem de sexo misturado e de corpos heterogêneos.
Chamam-nas de divindades, quando são tais que, se recebessem fôlego e de súbito as encontrassem, seriam tidas por monstros." Então, algum tempo depois, ao exaltar a teologia natural, tendo exposto os sentimentos de certos filósofos, ele opõe a si mesmo uma questão e diz: "Aqui alguém diz: Devo crer que os céus e a terra são deuses, e que alguns estão acima da lua e outros abaixo dela?
Devo apresentar ou Platão ou o peripatético Estratão, um dos quais fez Deus sem corpo, o outro sem mente?" Em resposta a isso ele diz: "E, na verdade, o que de mais verdadeiro te parecem os sonhos de Tito Tácio, ou de Rômulo, ou de Tulo Hostílio?
Tácio declarou a divindade da deusa Cloacina; Rômulo, a de Pico e Tiberino; Tulo Hostílio, a de Pavor e Palor, as mais desagradáveis afecções dos homens, uma das quais é a agitação da mente sob o susto, a outra a do corpo, não uma doença, na verdade, mas uma mudança de cor." Preferirás antes crer que estes são divindades e recebê-los no céu? Mas com que liberdade ele escreveu acerca dos próprios ritos, cruéis e vergonhosos! "Um", diz ele, "castra-se a si mesmo, outro corta os próprios braços.
Onde encontrarão lugar para o temor destes deuses quando irados, eles que usam tais meios para conquistar-lhes o favor quando propícios? Mas deuses que desejam ser adorados desta maneira não deveriam ser adorados de maneira alguma. Tão grande é o frenesi da mente quando perturbada e arrancada de seu assento, que os deuses são aplacados pelos homens de um modo pelo qual nem mesmo os homens de maior ferocidade e de crueldade celebrada pela fábula dão vazão à sua ira. Tiranos laceraram os membros de alguns; nunca, porém, ordenaram a ninguém que lacerasse os próprios.
Para a satisfação da luxúria régia, alguns foram castrados; mas nunca ninguém, por ordem de seu senhor, lançou mãos violentas sobre si mesmo para emascular-se. Eles se matam nos templos. Suplicam com suas feridas e com seu sangue. Se alguém tem tempo de ver as coisas que fazem e as coisas que sofrem, encontrará tantas coisas indecorosas para homens de respeitabilidade, tão indignas de homens livres, tão diversas dos feitos de homens sãos, que ninguém duvidaria de que estão loucos, se tivessem enlouquecido em minoria; mas agora a multidão dos insanos é a defesa de sua sanidade."
Em seguida ele relata aquelas coisas que se costumam fazer no Capitólio, e com a máxima intrepidez insiste em que são tais coisas que se poderia crer serem feitas por homens que zombam, ou por loucos.
Pois, tendo falado com escárnio disto, que nos ritos sagrados egípcios Osíris, estando perdido, é lamentado, mas logo, quando encontrado, é ocasião de grande júbilo por seu reaparecimento, porque tanto a perda quanto o achado dele são fingidos; e contudo aquela tristeza e aquela alegria que disso são suscitadas naqueles que nada perderam e nada acharam são reais; tendo, repito, assim falado disto, ele diz: "Ainda assim um tempo fixado para este frenesi. É tolerável enlouquecer uma vez ao ano. Entra no Capitólio.
Um está sugerindo ordens divinas a um deus; outro está dizendo as horas a Júpiter; um é litor; outro é um ungidor, que com o mero movimento dos braços imita alguém que unge. mulheres que arranjam os cabelos de Juno e de Minerva, postadas bem longe não de sua imagem, mas até de seu templo. Estas movem os dedos à maneira dos cabeleireiros. algumas mulheres que seguram um espelho. algumas que estão chamando os deuses para assisti-las no tribunal. algumas que lhes estão estendendo documentos e lhes estão explicando suas causas.
Um comediante erudito e distinto, agora velho e decrépito, fazia diariamente o mímico no Capitólio, como se os deuses gostosamente quisessem ser espectadores daquilo de que os homens haviam deixado de se importar. Toda espécie de artífices que trabalham para os deuses imortais ali habita na ociosidade." E pouco depois ele diz: "Não obstante, estes, ainda que se entreguem aos deuses para fins bastante supérfluos, não o fazem com nenhum propósito abominável ou infame. certas mulheres sentadas no Capitólio que pensam ser amadas por Júpiter; nem mesmo se assustam com o olhar da, se quiserdes crer nos poetas, iradíssima Juno."
Desta liberdade Varrão não gozou. Era apenas a teologia poética que ele parecia censurar. A civil, que este homem despedaça, ele não foi suficientemente ousado para impugnar. Mas, se atentamos para a verdade, os templos onde estas coisas são realizadas são muito piores do que os teatros onde são representadas. Donde, com respeito a estes ritos sagrados da teologia civil, Sêneca preferiu, como o melhor caminho a ser seguido por um homem sábio, fingir respeitá-los em ato, mas não ter por eles consideração real alguma no coração.
"Todas essas coisas", diz ele, "um homem sábio observará por serem ordenadas pelas leis, mas não por serem agradáveis aos deuses." E pouco depois diz: "E que dizer disto, que unimos os deuses em matrimônio, e isso nem ao menos de modo natural, pois unimos irmãos e irmãs? Casamos Belona com Marte, Vênus com Vulcano, Salácia com Netuno. Alguns deles deixamos solteiros, como se não houvesse par para eles, o que por certo é desnecessário, especialmente quando certas deusas solteiras, como Populônia, ou Fulgora, ou a deusa Rumina, por quem não me admiro que tenham faltado pretendentes.
Toda essa turba ignóbil de deuses, que a superstição das eras amontoou, devemos", diz ele, "adorar de tal maneira que nos lembremos o tempo todo de que seu culto pertence antes ao costume do que à realidade." Por isso, nem aquelas leis nem aqueles costumes instituídos na teologia civil instituíram o que era agradável aos deuses, ou o que pertencia à realidade.
Mas este homem, a quem a filosofia havia tornado, por assim dizer, livre, não obstante, por ser um ilustre senador do povo romano, adorava o que censurava, fazia o que condenava, venerava o que reprovava, porque, em verdade, a filosofia lhe havia ensinado algo grande: a saber, não ser supersticioso no mundo, mas, por causa das leis das cidades e dos costumes dos homens, ser um ator, não no palco, mas nos templos; conduta tanto mais a ser condenada quanto aquelas coisas que ele encenava de modo enganoso, ele as encenava de tal modo que o povo pensava que ele agia sinceramente.
Mas um ator de palco antes deleitaria o povo encenando peças do que o iludiria com falsas aparências.