A Cidade de Deus - Livro VI 8
Livro VI: contra a teologia tripartida de Varrão e a incapacidade dos deuses de dar a vida feliz
As interpretações, baseadas em explicações naturais, que os mestres pagãos tentam apresentar em favor de seus deuses
Mas todas essas coisas, dizem eles, possuem certas interpretações físicas, isto é, naturais, que revelam o seu sentido natural, como se nesta discussão buscássemos a física e não a teologia, que é a doutrina, não da natureza, mas de Deus. Pois, ainda que Aquele que é o verdadeiro Deus seja Deus não por opinião, mas por natureza, nem por isso toda natureza é Deus; pois existe certamente uma natureza do homem, do animal, da árvore, da pedra, e nenhuma dessas coisas é Deus.
Pois se, tratando-se da questão da mãe dos deuses, aquilo de que parte todo o sistema de interpretação é certamente que a mãe dos deuses é a terra, por que prosseguimos na indagação? Por que conduzimos nossa investigação por todo o restante dela? Que coisa pode favorecer mais manifestamente os que dizem que todos esses deuses foram homens? Pois são nascidos da terra no sentido de que a terra é sua mãe. Mas na verdadeira teologia a terra é obra de Deus, não sua mãe.
Mas, seja qual for o modo como seus ritos sagrados se interpretem, e qualquer que seja a referência que tenham à natureza das coisas, não é segundo a natureza, mas contra a natureza, que os homens se tornem efeminados. Esta doença, este crime, esta abominação tem lugar reconhecido entre aquelas coisas sagradas, ainda que mesmo homens depravados dificilmente sejam compelidos pelos tormentos a confessar-se culpados dela.
Por outro lado, se esses ritos sagrados, que se mostram mais imundos do que as abominações cênicas, são desculpados e justificados sob o pretexto de que possuem suas próprias interpretações, pelas quais se demonstra que simbolizam a natureza das coisas, por que não são igualmente desculpadas e justificadas as coisas poéticas?
Pois muitos interpretaram também estas de modo semelhante, a tal ponto que mesmo aquilo que dizem ser o mais monstruoso e o mais horrível, a saber, que Saturno devorou os próprios filhos, foi interpretado por alguns deles como significando que a duração do tempo, que é assinalada pelo nome de Saturno, consome tudo quanto gera; ou que, como pensa o mesmo Varrão, Saturno pertence às sementes que tornam a cair na terra de onde brotam. E assim um o interpreta de uma maneira, e outro de outra. E o mesmo se há de dizer de todo o restante desta teologia.
E, no entanto, ela é chamada teologia fabulosa, e é censurada, repudiada, rejeitada, juntamente com todas as interpretações dessa espécie que lhe pertencem. E não somente pela teologia natural, que é a dos filósofos, mas também por esta teologia civil de que estamos falando, a qual se afirma dizer respeito às cidades e aos povos, é julgada digna de repúdio, porque inventou coisas indignas a respeito dos deuses.
Disto, bem o sei, este é o segredo: que aqueles homens agudíssimos e doutíssimos, por quem essas coisas foram escritas, compreenderam que ambas as teologias deviam ser rejeitadas, a saber, tanto a fabulosa quanto esta civil; mas a primeira ousaram rejeitar, a segunda não ousaram; a primeira expuseram para ser censurada, a segunda mostraram ser muito semelhante a ela; não para que fosse escolhida e mantida de preferência à outra, mas para que se compreendesse ser digna de ser rejeitada junto com ela.
E assim, sem perigo para aqueles que temiam censurar a teologia civil, sendo ambas postas em desprezo, aquela teologia que chamam natural poderia encontrar lugar em mentes mais bem dispostas; pois a civil e a fabulosa são ambas fabulosas e ambas civis. Aquele que examinar sabiamente as vaidades e obscenidades de ambas descobrirá que ambas são fabulosas; e aquele que dirigir sua atenção às representações cênicas pertencentes à teologia fabulosa nas festas dos deuses civis e nos ritos divinos das cidades descobrirá que ambas são civis.
Como, então, pode atribuir-se o poder de conceder a vida eterna a algum desses deuses cujas próprias imagens e ritos sagrados os convencem de serem muito semelhantes aos deuses fabulosos, que são abertamente reprovados, nas formas, nas idades, no sexo, nas características, nos casamentos, nas gerações, nos ritos: em todas essas coisas se compreende que ou foram homens, e que tiveram seus ritos sagrados e solenidades instituídos em sua honra conforme a vida ou a morte de cada um deles, sugerindo e confirmando os demônios este erro, ou então foram certamente espíritos imundíssimos, que, aproveitando-se de uma ou outra ocasião, se introduziram furtivamente nas mentes dos homens para enganá-los?