A Cidade de Deus - Livro V 7

Livro V: o destino, o livre-arbítrio, a presciência divina e a fonte das virtudes dos antigos romanos

Sobre a escolha de um dia para o casamento, ou para plantar, ou semear

Ora, alegará alguém isto: que, ao escolherem certos dias particulares para ações particulares, os homens produzem certos destinos novos para suas ações? Aquele homem, por exemplo, segundo esta doutrina, não havia nascido para ter um filho ilustre, mas antes um desprezível, e portanto, sendo homem de saber, escolheu uma hora em que se deitar com sua esposa. Fez, pois, um destino que antes não possuía, e desse destino por ele mesmo fabricado começou a ser fatal algo que não estava contido no destino da hora de seu nascimento. Oh, singular estupidez!
Escolhe-se um dia para casar; e por esta razão, creio eu, para que, a menos que se escolha um dia, o casamento não recaia sobre um dia infausto e não venha a tornar-se infeliz. Que se faz, então, daquilo que os astros decretaram na hora do nascimento? Pode-se dizer que um homem mude, por um ato de escolha, aquilo que foi determinado para ele, ao passo que aquilo que ele próprio determinou na escolha de um dia não pode ser mudado por outro poder?
Assim, se somente os homens, e não todas as coisas debaixo do céu, estão sujeitos à influência dos astros, por que escolhem alguns dias como apropriados para plantar vinhas ou árvores, ou para semear o grão, e outros dias como apropriados para domar animais, ou para juntar os machos às fêmeas, a fim de que as vacas e as éguas sejam fecundadas, e para coisas semelhantes a essas?
Se se disser que certos dias escolhidos têm influência sobre essas coisas, porque as constelações regem todos os corpos terrestres, animados e inanimados, segundo as diferenças nos momentos do tempo, considere-se então que inumeráveis multidões de seres nascem, ou surgem, ou tomam sua origem no exato mesmo instante do tempo, e que chegam a fins tão diversos que poderiam persuadir qualquer menininho de que essas observações sobre os dias são ridículas. Pois quem é tão louco que ouse afirmar que todas as árvores, todas as ervas, todos os animais, serpentes, aves, peixes e vermes têm, cada um separadamente, os seus próprios momentos de nascimento ou de começo?
Não obstante, os homens costumam, a fim de pôr à prova a perícia dos matemáticos, apresentar-lhes as constelações de animais mudos, cujas constelações de nascimento observam diligentemente em casa com vistas a essa verificação; e preferem a todos os demais aqueles matemáticos que dizem, pela inspeção das constelações, que elas indicam o nascimento de um animal e não de um homem.
Ousam também dizer que espécie de animal é, se é um animal que produz lã, ou um animal apto a carregar fardos, ou um próprio para o arado, ou para guardar a casa; pois os astrólogos são igualmente postos à prova quanto ao destino dos cães, e suas respostas a respeito desses são seguidas de gritos de admiração da parte dos que os consultam. De tal modo enganam os homens, que lhes fazem crer que durante o nascimento de um homem ficam suspensos os nascimentos de todos os demais seres, de sorte que nem sequer uma mosca venha à vida no mesmo instante em que ele está nascendo, sob a mesma região dos céus.
E se isto for admitido a respeito da mosca, o raciocínio não pode deter-se aí, mas deve ascender das moscas até conduzi-los aos camelos e aos elefantes. Tampouco estão dispostos a atentar para isto: que, quando se escolheu um dia para semear um campo, tantos grãos caem na terra simultaneamente, germinam simultaneamente, brotam, chegam à perfeição e amadurecem simultaneamente; e, contudo, de todas as espigas que são coetâneas e, por assim dizer, congerminais, algumas são destruídas pela ferrugem, outras são devoradas pelas aves, e outras são colhidas pelos homens.
Como podem dizer que todas essas tinham suas diferentes constelações, vendo-as chegar a fins tão diversos? Confessarão que é loucura escolher dias para tais coisas e afirmar que elas não caem dentro da esfera do decreto celeste, ao passo que sujeitam somente os homens aos astros, os únicos no mundo a quem Deus concedeu o livre-arbítrio?
Consideradas todas essas coisas, temos boa razão para crer que, quando os astrólogos dão muitíssimas respostas admiráveis, isto se deve atribuir à oculta inspiração de espíritos que não são da melhor espécie, cujo cuidado é insinuar nas mentes dos homens, e neles confirmar, aquelas opiniões falsas e nocivas acerca da influência fatal dos astros, e não à sua marcação e inspeção de horóscopos, segundo alguma espécie de arte que na realidade não tem existência alguma.