A Cidade de Deus - Livro V 6
Livro V: o destino, o livre-arbítrio, a presciência divina e a fonte das virtudes dos antigos romanos
Sobre os gêmeos de sexos diferentes
Mas ainda que na própria concepção dos gêmeos, a qual certamente ocorre no mesmo momento no caso de ambos, acontece com frequência que um é concebido macho e o outro fêmea. Conheço dois gêmeos de sexos diferentes.
Ambos estão vivos, e na flor da idade; e embora se assemelhem um ao outro no corpo, na medida em que a diferença de sexo permite, ainda assim são muito diferentes em todo o alcance e propósito de suas vidas (levando-se em conta aquelas diferenças que necessariamente existem entre as vidas dos homens e das mulheres): um exerce o ofício de conde, e está quase constantemente ausente de casa com o exército em serviço no estrangeiro; a outra nunca deixa o solo de sua pátria, nem o distrito em que nasceu.
Mais ainda, e isto é mais incrível, se se há de crer nos destinos das estrelas, embora não seja admirável se considerarmos as vontades dos homens e os dons gratuitos de Deus: ele é casado; ela é uma virgem consagrada; ele gerou numerosa descendência; ela nunca sequer se casou. Mas não é grandíssima a virtude do horóscopo? Penso ter dito o suficiente para mostrar o absurdo disso. Contudo, dizem aqueles astrólogos, qualquer que seja a virtude do horóscopo nos demais aspectos, ele é certamente significativo no que diz respeito ao nascimento. Mas por que não também no que diz respeito à concepção, a qual ocorre, sem dúvida, com um único ato de cópula?
E, na verdade, tão grande é a força da natureza que, uma vez que a mulher tenha concebido, ela deixa de estar sujeita à concepção. Ou teriam, talvez, sido mudados ao nascer, ou ele em macho, ou ela em fêmea, por causa da diferença de seus horóscopos?
Mas, ainda que não seja de todo absurdo dizer que certas influências siderais têm algum poder de causar diferenças apenas nos corpos (como, por exemplo, vemos que as estações do ano se sucedem pela aproximação e pelo afastamento do sol, e que certas espécies de coisas aumentam ou diminuem de tamanho com o crescer e o minguar da lua, tais como os ouriços-do-mar, as ostras e as admiráveis marés do oceano), não se segue daí que as vontades dos homens devam ser sujeitadas à posição dos astros.
Os astrólogos, no entanto, quando querem prender também as nossas ações às constelações, apenas nos levam a investigar se, mesmo nesses corpos, as mudanças não poderiam ser atribuídas a alguma outra causa que não a sideral. Pois o que há que diga respeito mais intimamente a um corpo do que o seu sexo? E, contudo, sob a mesma posição dos astros, podem ser concebidos gêmeos de sexos diferentes.
Por isso, que maior absurdo se pode afirmar ou crer do que dizer que a posição dos astros, a qual era a mesma para ambos no momento da concepção, não pôde fazer com que um dos filhos não fosse de sexo diferente do de seu irmão, com quem ela tinha uma constelação comum, ao passo que a posição dos astros que existia na hora do nascimento deles pôde fazer com que ela fosse separada dele pela grande distância que vai entre o matrimônio e a santa virgindade?