A Cidade de Deus - Livro V 26
Livro V: o destino, o livre-arbítrio, a presciência divina e a fonte das virtudes dos antigos romanos
Sobre a fé e a piedade de Teodósio Augusto
E por essa razão, Teodósio não apenas conservou, durante a vida de Graciano, a fidelidade que lhe era devida, mas também, depois da morte deste, como verdadeiro cristão, tomou sob sua proteção o irmãozinho de Graciano, Valentiniano, na qualidade de coimperador, depois que este havia sido expulso por Máximo, o assassino de seu pai. Guardou-o com afeto paternal, embora pudesse, sem dificuldade alguma, ter-se livrado dele, que estava inteiramente desprovido de todos os recursos, caso fosse animado pelo desejo de um vasto império, e não pela ambição de ser um benfeitor.
Foi-lhe, portanto, prazer muito maior, depois de ter adotado o menino e de lhe ter conservado a dignidade imperial, consolá-lo por sua própria humanidade e bondade. Mais tarde, quando aquele sucesso tornava Máximo temível, Teodósio, em meio às suas angustiantes inquietações, não se deixou arrastar a seguir as sugestões de uma curiosidade sacrílega e ilícita, mas enviou mensageiros a João, cuja morada ficava no deserto do Egito, pois soubera que esse servo de Deus (cuja fama se espalhava por toda parte) estava dotado do dom da profecia, e dele recebeu a garantia da vitória.
Imediatamente, o matador do tirano Máximo, com os mais profundos sentimentos de compaixão e respeito, restituiu o menino Valentiniano à sua parte no império, da qual havia sido expulso. Sendo Valentiniano logo depois morto por assassinato secreto, ou por algum outro complô ou acidente, Teodósio, tendo de novo recebido uma resposta do profeta, e nela depositando inteira confiança, marchou contra o tirano Eugênio, que havia sido ilicitamente eleito para suceder àquele imperador, e derrotou o seu poderosíssimo exército mais pela oração do que pela espada.
Alguns soldados que estiveram na batalha relataram-me que todos os projéteis que lançavam eram arrancados de suas mãos por um vento veemente, que soprava da direção do exército de Teodósio sobre o inimigo; e esse vento não apenas impelia com maior velocidade os dardos arremessados contra eles, mas também voltava contra os próprios corpos deles os dardos que eles mesmos lançavam.
E por isso o poeta Cláudio, embora alheio ao nome de Cristo, diz, contudo, em seus louvores a Teodósio: "Ó príncipe demasiado amado por Deus, por ti Éolo derrama das cavernas as tempestades armadas; por ti o ar combate, e os ventos, de comum acordo, obedecem às tuas trombetas." Mas o vencedor, como havia crido e predito, derrubou as estátuas de Júpiter, que tinham sido, por assim dizer, consagradas contra ele com não sei que espécie de ritos, e erigidas nos Alpes.
E os raios dessas estátuas, que eram feitos de ouro, ele os presenteou, alegre e graciosamente, a seus correios, que (na medida em que a alegria da ocasião permitia) diziam jocosamente que ficariam felicíssimos de ser feridos por tais raios. Os filhos de seus próprios inimigos, cujos pais haviam sido mortos não tanto por suas ordens quanto pela veemência da guerra, tendo-se refugiado numa igreja, embora ainda não fossem cristãos, ele desejou ansiosamente, aproveitando a ocasião, trazer ao cristianismo, e tratou-os com amor cristão.
Nem os privou de seus bens, mas, além de permitir-lhes conservá-los, conferiu-lhes honras adicionais. Não permitiu que animosidades privadas afetassem o tratamento de homem algum depois da guerra. Não foi como Cina, Mário, Sila e outros homens semelhantes, que não quiseram pôr fim às guerras civis nem mesmo quando estavam findas, mas que antes se afligiam por elas terem sequer surgido do que desejavam que, uma vez findas, prejudicassem a alguém.
Em meio a todos esses acontecimentos, desde o próprio início de seu reinado, ele não cessou de socorrer a Igreja atribulada contra os ímpios por meio de leis justíssimas e clementíssimas, leis a que o herético Valente, favorecendo os arianos, havia afligido veementemente. Com efeito, ele se alegrava mais por ser membro desta Igreja do que por ser rei sobre a terra. Os ídolos dos gentios ordenou ele que fossem por toda parte derribados, compreendendo bem que nem mesmo os dons terrestres estão postos no poder dos demônios, mas no do Deus verdadeiro.
E que poderia haver de mais admirável do que a sua humildade religiosa, quando, compelido pela insistência de certos de seus íntimos, vingou o gravíssimo crime dos tessalonicenses, que, a pedido dos bispos, havia prometido perdoar, e, sendo alcançado pela disciplina da Igreja, fez penitência de tal modo que a visão de sua altivez imperial prostrada fez chorar mais o povo que intercedia por ele do que a consciência da ofensa o havia feito temê-la quando ele estava enfurecido?
Estas e outras boas obras semelhantes, que seria longo enumerar, ele as levou consigo deste mundo do tempo, onde a maior nobreza e altivez humanas não passam de vapor. Dessas obras o prêmio é a felicidade eterna, da qual Deus é o doador, ainda que somente aos que são sinceramente piedosos. Mas todas as outras bênçãos e privilégios desta vida, como o próprio mundo, a luz, o ar, a terra, a água, os frutos, e a alma do próprio homem, o seu corpo, os sentidos, a mente, a vida, Deus os prodigaliza igualmente aos bons e aos maus.
E entre essas bênçãos deve também contar-se a posse de um império, cuja extensão Deus regula conforme as exigências de seu governo providencial nos diversos tempos. Donde vejo que devemos agora responder àqueles que, refutados e convencidos pelas provas mais manifestas, pelas quais se demonstra que, para a obtenção dessas coisas terrestres, que todos os insensatos desejam possuir, aquela multidão de falsos deuses de nada serve, tentam afirmar que os deuses devem ser adorados com vistas ao interesse não da vida presente, mas daquela que há de vir depois da morte.
Pois, quanto àqueles que, em prol da amizade deste mundo, estão dispostos a adorar vaidades, e não se afligem por serem deixados aos seus entendimentos pueris, julgo que lhes foi suficientemente respondido nestes cinco livros; e desses livros, quando eu havia publicado os três primeiros, e eles haviam começado a chegar às mãos de muitos, ouvi que certas pessoas preparavam contra eles algum tipo de resposta por escrito. Depois me foi dito que já tinham escrito a sua resposta, mas que aguardavam um tempo em que pudessem publicá-la sem perigo.
A tais pessoas eu aconselharia a não desejar aquilo que de nada lhes pode aproveitar; pois é muito fácil a um homem parecer a si mesmo ter respondido a argumentos, quando apenas não quis calar-se. Pois que há mais loquaz do que a vaidade? E ainda que ela seja capaz, se quiser, de gritar mais alto do que a verdade, nem por isso é mais poderosa do que a verdade.
Mas considerem os homens diligentemente todas as coisas que dissemos, e se, porventura, julgando sem espírito de partido, perceberem claramente que são tais coisas que antes podem ser abaladas do que arrancadas pela sua impudentíssima tagarelice e por sua, por assim dizer, satírica e mímica leviandade, refreiem os seus absurdos, e prefiram antes ser corrigidos pelos sábios a ser louvados pelos tolos.
Pois, se eles aguardam uma oportunidade, não para a liberdade de dizer a verdade, mas para a licença de injuriar, não lhes poderá acontecer aquilo que Túlio diz acerca de alguém: "Ó homem miserável! a quem era lícito pecar?" Por isso, seja quem for que se julgue feliz por causa da licença de injuriar, seria muito mais feliz se isso de modo algum lhe fosse permitido; pois poderia, todo esse tempo, deixando de lado a vã jactância, contradizer aqueles a cujas opiniões se opõe, por meio de livre consulta com eles, e escutar, como lhe convém, honrosa, séria e candidamente, tudo o que possa ser aduzido por aqueles a quem consulta mediante amistosa disputa.