A Cidade de Deus - Livro V 1
Livro V: o destino, o livre-arbítrio, a presciência divina e a fonte das virtudes dos antigos romanos
Prefácio. Que a causa do império romano, e de todos os reinos, não é fortuita nem consiste na posição dos astros.
Visto, então, que está estabelecido que a plena obtenção de tudo o que desejamos é aquilo que constitui a felicidade, a qual não é deusa alguma, mas um dom de Deus, e que, portanto, os homens não podem adorar deus algum senão Aquele que é capaz de torná-los felizes (e fosse a própria Felicidade uma deusa, com razão seria ela o único objeto de adoração), visto, repito, que isto está estabelecido, passemos agora a considerar por que Deus, que é capaz de conceder, juntamente com todas as outras coisas, aqueles bons dons que podem ser possuídos por homens que não são bons e, por consequência, não são felizes, julgou conveniente outorgar tão extenso e duradouro domínio ao império romano; pois que isto não se efetuou por aquela multidão de falsos deuses que eles adoravam, já o demonstramos, e ainda, conforme a ocasião o permitir, havemos de apresentar prova considerável.
A causa, então, da grandeza do império romano não é fortuita nem fatal, segundo o juízo ou a opinião daqueles que chamam fortuitas as coisas que ou não têm causas, ou têm causas tais que não procedem de alguma ordem inteligível, e chamam fatais as coisas que acontecem independentemente da vontade de Deus e do homem, pela necessidade de certa ordem. Em uma palavra, os reinos humanos são estabelecidos pela providência divina. E se alguém atribui a existência deles ao destino, porque chama a própria vontade ou o poder de Deus pelo nome de destino, guarde a sua opinião, mas corrija a sua linguagem.
Pois por que não diz ele desde o princípio o que dirá depois, quando alguém lhe puser a questão: o que entende por destino? Pois quando os homens ouvem essa palavra, segundo o uso ordinário da língua, entendem por ela simplesmente a virtude daquela particular posição dos astros que possa existir no tempo em que alguém nasce ou é concebido, posição que alguns separam inteiramente da vontade de Deus, ao passo que outros afirmam que também ela depende dessa vontade.
Mas aqueles que são de opinião que, à parte da vontade de Deus, os astros determinam o que havemos de fazer, ou que bens havemos de possuir, ou que males havemos de sofrer, devem ter negada a audiência por todos, não só por aqueles que professam a verdadeira religião, mas também por aqueles que desejam ser adoradores de quaisquer deuses, ainda que falsos deuses. Pois a que vem a dar realmente esta opinião, senão a isto: que nenhum deus, seja qual for, deve ser adorado ou invocado? Contra estes, contudo, não se pretende dirigir a nossa presente disputa, mas contra aqueles que, em defesa daqueles que julgam ser deuses, se opõem à religião cristã.
Eles, porém, que fazem depender a posição dos astros da vontade divina, e de certo modo decretam que caráter cada homem há de ter, e que bem ou mal lhe há de acontecer, se pensam que esses mesmos astros têm aquele poder a eles conferido pelo supremo poder de Deus, a fim de que determinem essas coisas segundo a sua vontade, fazem grande injúria à esfera celeste, em cujo brilhantíssimo senado, e esplendidíssima casa do senado, por assim dizer, supõem que se decretam ações perversas: ações tais que, se algum estado terrestre as decretasse, seria condenado à destruição pelo decreto de todo o gênero humano.
Que juízo, então, resta a Deus acerca das ações dos homens, sendo Ele Senhor tanto dos astros quanto dos homens, quando a essas ações se atribui uma necessidade celeste? Ou, se não dizem que os astros, embora tenham de fato recebido certo poder de Deus, que é supremo, determinam essas coisas segundo o seu próprio arbítrio, mas simplesmente que os mandamentos d'Ele são cumpridos por eles instrumentalmente na aplicação e imposição de tais necessidades, havemos de pensar assim acerca de Deus aquilo mesmo que pareceu indigno que pensássemos acerca da vontade dos astros?
Mas, se antes se diz que os astros significam essas coisas do que as efetuam, de modo que aquela posição dos astros é, por assim dizer, uma espécie de fala que prediz, não que causa, as coisas futuras (pois esta foi a opinião de homens de não comum erudição), por certo os matemáticos não costumam falar assim, dizendo, por exemplo, que Marte em tal ou tal posição significa um homicida, mas que faz um homicida.
Mas, não obstante, ainda que concedamos que eles não falam como deveriam, e que devemos aceitar como a forma própria de falar aquela empregada pelos filósofos ao predizer aquelas coisas que julgam descobrir na posição dos astros, como vem a ser que nunca foram capazes de atribuir causa alguma pela qual, na vida dos gêmeos, em suas ações, nos acontecimentos que lhes sobrevêm, em suas profissões, artes, honras e outras coisas pertencentes à vida humana, e também em sua própria morte, há muitas vezes diferença tão grande que, no que toca a essas coisas, muitos completos estranhos são mais semelhantes a eles do que eles o são entre si, ainda que separados no nascimento pelo menor intervalo de tempo, mas na concepção gerados pelo mesmo ato de cópula, e no mesmo instante?