A Cidade de Deus - Livro IX 8
Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens
Como Apuleio define os deuses que habitam o céu, os demônios que ocupam o ar, e os homens que habitam a terra
A definição que Apuleio dá dos demônios, e na qual ele, evidentemente, inclui todos os demônios, é que eles são, por natureza, animais; quanto à alma, sujeitos às paixões; quanto à mente, racionais; quanto ao corpo, aéreos; quanto à duração, eternos. Ora, nestas cinco qualidades ele não nomeou absolutamente nada que seja próprio dos homens bons e que não pertença também aos maus.
Pois, tendo Apuleio falado primeiro dos celestiais, e havendo então estendido sua descrição de modo a incluir um relato daqueles que habitam muito abaixo, na terra, para que, depois de descrever os dois extremos do ser racional, pudesse passar a falar dos demônios intermediários, ele diz: "Os homens, portanto, que são dotados da faculdade da razão e da palavra, cuja alma é imortal e os membros mortais, que têm espíritos fracos e ansiosos, corpos obtusos e corruptíveis, caráteres dessemelhantes, ignorância semelhante, que são obstinados em sua audácia e persistentes em sua esperança, cujo trabalho é vão e cuja fortuna está sempre em declínio, sendo sua raça imortal e eles próprios perecíveis, repondo-se cada geração com criaturas cuja vida é veloz e cuja sabedoria é lenta, cuja morte é súbita e cuja vida é um lamento: estes são os homens que habitam a terra." Ao enumerar tantas qualidades que pertencem à maior parte dos homens, esqueceu-se ele daquilo que é próprio dos poucos, quando fala de que a sabedoria deles é lenta?
Se isto tivesse sido omitido, essa sua descrição do gênero humano, tão cuidadosamente elaborada, teria ficado deficiente. E quando louvou a excelência dos deuses, afirmou que eles sobressaíam precisamente naquela bem-aventurança à qual ele pensa que os homens devem chegar pela sabedoria. E, portanto, se ele houvesse querido que crêssemos que alguns dos demônios são bons, deveria ter inserido em sua descrição algo pelo qual pudéssemos ver que eles têm, em comum com os deuses, alguma parte da bem-aventurança, ou, em comum com os homens, alguma sabedoria. Mas, do modo como está, ele não mencionou nenhuma boa qualidade pela qual os bons pudessem ser distinguidos dos maus.
Pois, embora ele se tenha abstido de dar um relato completo da maldade deles, por temor de ofender, não a eles próprios, mas a seus adoradores, para os quais escrevia, ainda assim indicou suficientemente aos leitores perspicazes a opinião que tinha a respeito deles; porque somente no único ponto da eternidade de seus corpos ele os assemelha aos deuses, os quais todos, segundo afirma, são bons e bem-aventurados, e absolutamente livres daquilo que ele mesmo chama de paixões tempestuosas dos demônios; e, quanto à alma, ele afirma de modo bem claro que eles se assemelham aos homens e não aos deuses, e que essa semelhança não está na posse da sabedoria, à qual até os homens podem chegar, mas na perturbação das paixões que arrastam os insensatos e os maus, mas que de tal modo é dominada pelos bons e sábios que estes preferem antes não admiti-la a vencê-la.
Pois, se ele houvesse querido que se entendesse que os demônios se assemelham aos deuses na eternidade, não de seus corpos, mas de suas almas, certamente teria admitido que os homens partilhassem desse privilégio, porque, como platônico, ele necessariamente deve sustentar que a alma humana é eterna. Por conseguinte, ao descrever essa raça de seres vivos, disse que as almas deles eram imortais, e os membros mortais. E, em consequência, se os homens não têm eternidade em comum com os deuses por terem corpos mortais, os demônios têm eternidade em comum com os deuses por serem imortais os seus corpos.