A Cidade de Deus - Livro IX 7
Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens
Que os platônicos sustentam que os poetas ofendem os deuses ao representá-los como agitados por paixões partidárias, às quais estão sujeitos os demônios, e não os deuses
Mas se alguém disser que não é de todos os demônios, e sim apenas dos perversos, que os poetas, não sem verdade, afirmam que amam ou odeiam violentamente certos homens (pois foi a respeito deles que Apuleio disse que eram arrastados por fortes correntes de emoção), como podemos aceitar essa interpretação, quando o próprio Apuleio, nesse mesmo contexto, representa todos os demônios, e não apenas os perversos, como intermediários entre os deuses e os homens por meio de seus corpos aéreos?
A ficção dos poetas, segundo ele, consiste em fazerem deuses dos demônios, dando-lhes os nomes dos deuses e atribuindo-os como aliados ou inimigos a determinados homens, usando dessa licença poética, embora professem que os deuses são de caráter muito diferente do dos demônios, e muito superiores a eles por sua morada celeste e por sua plenitude de bem-aventurança. Esta, repito, é a ficção dos poetas: dizer que são deuses os que não são deuses, e que, sob os nomes dos deuses, eles combatem entre si por causa dos homens a quem amam ou odeiam com ardoroso sentimento partidário.
Apuleio diz que isso não está longe da verdade, pois, ainda que sejam chamados indevidamente pelos nomes dos deuses, são descritos em seu próprio e verdadeiro caráter como demônios. A esta categoria, diz ele, pertence a Minerva de Homero, "que se interpôs nas fileiras dos gregos para conter Aquiles". Pois que isto fosse Minerva ele supõe ser ficção poética; porque pensa que Minerva é uma deusa, e a coloca entre os deuses que crê serem todos bons e bem-aventurados na sublime região etérea, longe do convívio com os homens.
Mas que houve um demônio favorável aos gregos e adverso aos troianos, assim como outro, que o mesmo poeta menciona sob o nome de Vênus ou de Marte (deuses elevados acima dos assuntos terrenos em suas moradas celestes), era aliado dos troianos e inimigo dos gregos, e que esses demônios lutavam por aqueles a quem amavam contra aqueles a quem odiavam: em tudo isto ele reconheceu que os poetas afirmaram algo muito semelhante à verdade.
Pois fizeram tais afirmações a respeito de seres a quem ele atribui as mesmas paixões violentas e tempestuosas que perturbam os homens, e que são, portanto, capazes de amores e ódios não formados com justiça, mas formados por espírito partidário, tal como os espectadores nas corridas ou nas caçadas concebem preferências e parcialidades. Parece ter sido o grande temor deste platônico que as ficções poéticas fossem cridas a respeito dos deuses, e não dos demônios que traziam os seus nomes.