A Cidade de Deus - Livro IX 6

Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens

Das paixões que, segundo Apuleio, agitam os demônios por ele supostos mediadores entre os deuses e os homens

Adiando por ora a questão acerca dos santos anjos, examinemos a opinião dos platônicos, segundo a qual os demônios que medeiam entre os deuses e os homens são agitados por paixões. Pois, se a mente deles, ainda que exposta à incursão dessas paixões, permanecesse livre e superior a elas, Apuleio não poderia ter dito que os seus corações são revolvidos pelas paixões como o mar pelos ventos tempestuosos.
A mente deles, portanto (aquela parte superior da alma pela qual são seres racionais e que, se de fato existe neles, deveria governar e refrear as paixões turbulentas das partes inferiores da alma), essa mente deles, repito, é, segundo o platônico a que nos referimos, sacudida por um furacão de paixões. A mente dos demônios, pois, está sujeita às emoções do medo, da ira, da concupiscência e a todas as afecções semelhantes.
Que parte deles, então, é livre e dotada de sabedoria, de modo que sejam agradáveis aos deuses e guias idôneos dos homens para a pureza de vida, que a sua própria parte mais elevada, sendo escrava da paixão e sujeita ao vício, apenas os torna mais empenhados em enganar e seduzir, na proporção da força mental e da energia do desejo que possuem?