A Cidade de Deus - Livro IX 5

Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens

Que as paixões que assaltam as almas dos cristãos não as seduzem ao vício, mas exercitam a sua virtude

Não precisamos, no momento, oferecer uma exposição cuidadosa e copiosa da doutrina da Escritura, soma do conhecimento cristão, acerca dessas paixões. Ela submete a própria mente a Deus, para que Ele a governe e a auxilie, e submete, por sua vez, as paixões à mente, a fim de que esta as modere, as refreie e as converta a usos justos. Em nossa ética, não indagamos tanto se uma alma piedosa se ira, mas por que se ira; não se está triste, mas qual é a causa de sua tristeza; não se teme, mas o que teme.
Pois não creio que alguma pessoa de reto pensar encontre defeito na ira contra o malfeitor que busca a sua emenda, ou na tristeza que pretende alívio ao que sofre, ou no temor de que alguém em perigo venha a perecer. Os estoicos, na verdade, costumam condenar a compaixão. Mas quanto mais honroso teria sido, naquele estoico de quem temos falado, ter-se ele perturbado por uma compaixão que o movesse a socorrer um semelhante, do que perturbar-se pelo temor do naufrágio!
Bem melhores, mais humanas e mais consoantes com os sentimentos piedosos são as palavras de Cícero em louvor a César, quando diz: "Entre as vossas virtudes, nenhuma é mais admirável e agradável do que a vossa compaixão." E que é a compaixão senão um sentir-se afetado pela miséria alheia, que nos impele a ajudar o outro se podemos? E essa emoção é obediente à razão, quando a compaixão se mostra sem violar o que é justo, como quando os pobres são socorridos ou o penitente é perdoado.
Cícero, que sabia usar a linguagem, não hesitou em chamar virtude a isso que os estoicos não se envergonham de contar entre os vícios, ainda que, como nos ensinou o livro daquele eminente estoico Epicteto, ao citar as opiniões de Zenão e Crisipo, os fundadores da escola, eles admitam que paixões desse gênero invadem a alma do sábio, o qual eles queriam ver livre de todo vício.
Donde se segue que essas mesmas paixões não são por eles julgadas vícios, visto que assaltam o sábio sem o forçar a agir contra a razão e a virtude; e que, portanto, a opinião dos peripatéticos ou platônicos e a dos estoicos é uma e a mesma. Mas, como diz Cícero, a mera disputa de palavras é a praga desses lastimáveis gregos, que têm sede de contenda mais do que de verdade. Contudo, pode-se com justiça perguntar se a nossa sujeição a esses afetos, mesmo quando seguimos a virtude, é parte da enfermidade desta vida.
Pois os santos anjos não sentem ira quando punem aqueles que a lei eterna de Deus destina à punição, nem compaixão da miséria quando socorrem os miseráveis, nem temor quando auxiliam os que estão em perigo; e, no entanto, a linguagem comum lhes atribui também essas emoções da mente, porque, embora não tenham nenhuma de nossas fraquezas, os seus atos assemelham-se às ações a que essas emoções nos movem; e assim, até de Deus mesmo se diz na Escritura que se ira, e contudo sem perturbação alguma. Pois esta palavra é usada para o efeito de sua vingança, não para o perturbador afeto da mente.