A Cidade de Deus - Livro IX 22
Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens
A diferença entre o conhecimento dos anjos santos e o dos demônios
Os bons anjos, portanto, têm em pouca conta todo aquele conhecimento das coisas materiais e transitórias de cujo domínio os demônios tanto se orgulham, não porque ignorem tais coisas, mas porque o amor de Deus, pelo qual são santificados, lhes é muito caro, e porque, em comparação com aquela beleza não apenas imaterial, mas também imutável e inefável, com cujo santo amor estão inflamados, desprezam todas as coisas que lhe são inferiores, e tudo aquilo que não é ela, para que, com todo bem que há neles, gozem daquele bem que é a fonte de sua bondade.
E por isso têm um conhecimento mais certo até mesmo daquelas coisas temporais e mutáveis, porque contemplam seus princípios e causas no Verbo de Deus, pelo qual o mundo foi feito, aquelas causas pelas quais uma coisa é aprovada, outra rejeitada, e todas ordenadas. Mas os demônios não contemplam, na sabedoria de Deus, essas causas eternas e, por assim dizer, cardeais das coisas temporais, e apenas preveem uma parte maior do futuro do que os homens, em razão de seu maior conhecimento dos sinais que de nós estão ocultos. Às vezes, também, é suas próprias intenções que predizem.
E, por fim, os demônios são frequentemente enganados; os anjos, nunca. Pois uma coisa é, com o auxílio das coisas temporais e mutáveis, conjeturar as mudanças que podem ocorrer no tempo, e modificar tais coisas pela própria vontade e faculdade, e isto, em certa medida, é permitido aos demônios; outra coisa é prever as mudanças dos tempos nas leis eternas e imutáveis de Deus, que vivem em sua sabedoria, e conhecer a vontade de Deus, a mais infalível e poderosa de todas as causas, participando de seu Espírito; e isto é concedido aos anjos santos por justa discriminação.
E assim eles não são apenas eternos, mas bem-aventurados. E o bem em que são bem-aventurados é Deus, por quem foram criados. Pois sem fim gozam da contemplação e da participação dele.