A Cidade de Deus - Livro IX 23
Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens
Que o nome de deuses é atribuído falsamente aos deuses dos gentios, embora a Escritura o aplique tanto aos santos anjos quanto aos homens justos
Se os platônicos preferem chamar esses anjos de deuses, e não de demônios, e contá-los entre aqueles que Platão, seu fundador e mestre, afirma terem sido criados pelo Deus supremo, são livres para fazê-lo, pois não gastarei minhas forças disputando acerca de palavras. Pois, se dizem que esses seres são imortais e, contudo, criados pelo Deus supremo, bem-aventurados não por seu próprio poder, mas por se unirem ao seu Criador, dizem o que nós dizemos, qualquer que seja o nome pelo qual chamem tais seres. E que esta é a opinião ou de todos ou dos melhores platônicos pode-se verificar por seus escritos.
E quanto ao nome em si, se lhes parece bem chamar de deuses tais criaturas bem-aventuradas e imortais, não há necessidade de que isso suscite séria discussão entre nós, pois em nossas próprias Escrituras lemos: "O Deus dos deuses, o Senhor, falou"; e outra vez: "Louvai ao Deus dos deuses"; e ainda: "Ele é um grande Rei acima de todos os deuses." E onde se diz "Ele é temível acima de todos os deuses", logo se acrescenta a razão, pois segue-se: "porque todos os deuses das nações são ídolos, mas o Senhor fez os céus." Disse "acima de todos os deuses", mas acrescentou "das nações"; isto é, acima de todos aqueles a quem as nações têm por deuses, em outras palavras, os demônios.
Por eles deve Ele ser temido com aquele terror com que clamaram ao Senhor: "Vieste destruir-nos?" Mas onde se diz "o Deus dos deuses", não pode entender-se como o deus dos demônios; e longe esteja de nós dizer que "grande Rei acima de todos os deuses" signifique "grande Rei acima de todos os demônios". Porém a mesma Escritura também chama de "deuses" os homens que pertencem ao povo de Deus: "Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós sois filhos do Altíssimo." Por conseguinte, quando Deus é denominado Deus dos deuses, isto pode entender-se desses deuses; e assim também quando é denominado grande Rei acima de todos os deuses.
Não obstante, alguém poderá dizer: se os homens são chamados deuses por pertencerem ao povo de Deus, ao qual Ele se dirige por meio de homens e anjos, não serão os imortais, que já gozam daquela felicidade que os homens buscam alcançar adorando a Deus, muito mais dignos desse título? E que responderemos a isto, senão que não é sem razão que na sagrada Escritura os homens são chamados deuses mais expressamente do que aqueles espíritos imortais e bem-aventurados, aos quais esperamos ser iguais na ressurreição, porque havia o receio de que a fraqueza da incredulidade, dominada pela excelência desses seres, presumisse constituir a algum deles como deus?
No caso dos homens, esse era um resultado contra o qual não havia necessidade de precaver-se.
Além disso, era justo que os homens pertencentes ao povo de Deus fossem chamados deuses mais expressamente, para assegurar-lhes e certificar-lhes que Aquele que é chamado Deus dos deuses é o seu Deus; porque, embora aqueles espíritos imortais e bem-aventurados que habitam nos céus sejam chamados deuses, não são, contudo, chamados deuses dos deuses, isto é, deuses dos homens que constituem o povo de Deus, e aos quais se diz: "Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós sois filhos do Altíssimo." Daí o dito do apóstolo: "Ainda que haja alguns que se chamem deuses, quer no céu, quer na terra (como há muitos deuses e muitos senhores), todavia para nós há um só Deus, o Pai, do qual são todas as coisas, e nós nele; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele."
Não precisamos, portanto, contender laboriosamente acerca do nome, visto que a realidade é tão evidente que não admite sombra de dúvida. Aquilo que afirmamos, que os anjos enviados a anunciar aos homens a vontade de Deus pertencem à ordem dos imortais bem-aventurados, não satisfaz aos platônicos, porque eles creem que tal ministério é exercido não por aqueles a quem chamam deuses, em outras palavras, não pelos imortais bem-aventurados, mas pelos demônios, que não ousam afirmar serem bem-aventurados, mas apenas imortais; ou, se de fato os colocam entre os imortais bem-aventurados, é ainda apenas como bons demônios, e não como deuses que habitam no céu dos céus, longe de todo contato humano.
Mas, embora possa parecer mera contenda acerca de um nome, o nome de demônio é, contudo, tão detestável que não podemos suportar aplicá-lo, em sentido algum, aos santos anjos. Agora, portanto, encerremos este livro com a certeza de que, qualquer que seja o nome que demos a esses espíritos imortais e bem-aventurados, que ainda assim são apenas criaturas, eles não atuam como mediadores para introduzir à felicidade eterna os mortais miseráveis, dos quais estão separados por uma dupla distinção.
E aqueles outros que são mediadores, na medida em que têm a imortalidade em comum com os seus superiores e a miséria em comum com os seus inferiores (pois são justamente miseráveis em castigo de sua maldade), não podem conceder-nos, mas antes invejam que possuamos, a bem-aventurança da qual eles próprios estão excluídos. E assim os amigos dos demônios nada de relevante têm a alegar quanto a por que deveríamos antes adorá-los como nossos auxiliadores do que evitá-los como traidores de nossos interesses.
Quanto àqueles espíritos que são bons, e que por isso são não apenas imortais, mas também bem-aventurados, e aos quais eles supõem que deveríamos dar o título de deuses e oferecer adoração e sacrifícios em vista de herdar uma vida futura, esforçar-nos-emos, com a ajuda de Deus, por mostrar no livro seguinte que esses espíritos, chamai-os pelo nome que quiserdes e atribuí-lhes a natureza que vos aprouver, desejam que o culto religioso seja prestado somente a Deus, por quem foram criados, e por cujas comunicações de Si mesmo a eles são bem-aventurados.