A Cidade de Deus - Livro IX 2
Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens
Se entre os demônios, inferiores aos deuses, há algum espírito bom sob cuja tutela a alma humana possa alcançar a verdadeira bem-aventurança
Este livro, portanto, segundo a promessa feita no fim do anterior, deve conter uma discussão, não da diferença que existe entre os deuses, que, segundo os platônicos, são todos bons, nem da diferença entre deuses e demônios (aos primeiros eles separam dos homens por amplo intervalo, ao passo que os últimos são colocados em posição intermediária entre os deuses e os homens), mas da diferença, visto que eles a estabelecem, entre os próprios demônios. Isto discutiremos na medida em que diz respeito ao nosso tema.
Tem sido crença comum e habitual que alguns dos demônios são maus, outros bons; e esta opinião, quer seja a dos platônicos, quer a de qualquer outra seita, de modo algum deve ser passada em silêncio, para que ninguém suponha que deva cultuar os demônios bons a fim de que, por sua mediação, possa ser aceito pelos deuses, a todos os quais ele crê serem bons, e para que possa viver com eles após a morte; ao passo que, desse modo, ele ficaria enredado nas malhas dos espíritos maus e vagaria longe do Deus verdadeiro, com quem somente, e em quem somente, a alma humana, isto é, a alma que é racional e intelectual, é bem-aventurada.