A Cidade de Deus - Livro IX 1
Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens
O ponto a que chegou a discussão e o que resta tratar
Alguns sustentaram a opinião de que existem deuses bons e deuses maus; mas outros, pensando mais respeitosamente acerca dos deuses, atribuíram-lhes tanta honra e tanto louvor que excluíram a suposição de que algum deus fosse perverso. Ora, aqueles que afirmaram existir tanto deuses maus quanto bons incluíram os demônios sob o nome de "deuses", e às vezes, ainda que mais raramente, chamaram os deuses de demônios; de modo que admitem que Júpiter, a quem fazem rei e cabeça de todos os demais, é chamado de demônio por Homero.
Por outro lado, aqueles que sustentam que os deuses são todos bons, e muito mais excelentes que os homens a quem com justiça se chama bons, são levados pelas ações dos demônios, que não podem negar nem imputar aos deuses cuja bondade afirmam, a distinguir entre deuses e demônios; de sorte que, sempre que encontram algo ofensivo nos atos ou nos sentimentos pelos quais os espíritos invisíveis manifestam o seu poder, creem que isso procede não dos deuses, mas dos demônios.
Ao mesmo tempo, creem que, como nenhum deus pode manter trato direto com os homens, esses demônios ocupam a posição de mediadores, subindo com preces e voltando com dádivas. Esta é a opinião dos platônicos, os mais capazes e mais estimados de seus filósofos, com quem por isso escolhemos debater esta questão: se o culto a uma multidão de deuses é de alguma utilidade para a obtenção da bem-aventurança na vida futura.
E esta é a razão pela qual, no livro precedente, indagamos como os demônios, que se comprazem em coisas que os homens bons e sábios detestam e execram, nas ficções sacrílegas e imorais que os poetas escreveram, não dos homens, mas dos próprios deuses, e na perversa e criminosa violência das artes mágicas, podem ser tidos por mais aparentados e mais amigos dos deuses do que o são os homens, e podem mediar entre os homens bons e os deuses bons; e ficou demonstrado que isso é absolutamente impossível.