A Cidade de Deus - Livro IX 19

Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens

Que mesmo entre os seus próprios adoradores o nome "demônio" nunca tem significação boa

Mas como alguns desses adoradores de demônios, se assim me é permitido chamá-los, e entre eles Labeão, alegam que aqueles a quem chamam demônios são por outros chamados anjos, devo, se não quero parecer disputar apenas acerca de palavras, dizer algo sobre os bons anjos. Os platônicos não negam a existência destes, mas preferem chamá-los bons demônios. Nós, porém, seguindo a Escritura, conforme a qual somos cristãos, aprendemos que alguns dos anjos são bons e outros maus, mas nunca lemos na Escritura a respeito de bons demônios; antes, onde quer que este termo ou qualquer outro a ele aparentado ocorra, é aplicado somente aos espíritos malignos.
E este uso tornou-se tão universal que, mesmo entre aqueles que são chamados pagãos, e que sustentam que tanto os demônios quanto os deuses devem ser adorados, dificilmente um homem, por mais erudito e instruído que seja, que ousasse dizer, à guisa de elogio ao seu escravo: "Tu tens um demônio", ou que pudesse duvidar de que o homem a quem dissesse isto o consideraria uma maldição. Por que, então, havemos de nos sujeitar à necessidade de explicar o que dissemos quando damos ofensa ao usar a palavra demônio, à qual todos, ou quase todos, associam um sentido mau, quando podemos tão facilmente evitar essa necessidade usando a palavra anjo?