A Cidade de Deus - Livro IX 17

Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens

Que, para obter a vida bem-aventurada, que consiste na participação do sumo bem, o homem necessita de uma mediação fornecida não por um demônio, mas somente por Cristo

Causa-me considerável surpresa que homens tão doutos, homens que declaram que todas as coisas materiais e sensíveis são inteiramente inferiores às espirituais e inteligíveis, mencionem o contato corporal em conexão com a vida bem-aventurada. Acaso esqueceram aquela sentença de Plotino? "Devemos fugir para a nossa amada pátria. Ali está o Pai, ali está o nosso tudo. Que frota ou que voo nos conduzirá para lá? O nosso caminho é tornar-nos semelhantes a Deus." Se, portanto, alguém está tanto mais perto de Deus quanto mais semelhante a Ele se torna, não outra distância de Deus senão a dessemelhança a Ele.
E a alma do homem é tanto mais dessemelhante daquela essência incorpórea, imutável e eterna quanto mais anseia por coisas temporais e mutáveis. E como as coisas inferiores, que são mortais e impuras, não podem ter comunhão com a pureza imortal que está acima, faz-se de fato necessário um mediador para remover essa dificuldade; não, porém, um mediador que se assemelhe à ordem suprema do ser por possuir um corpo imortal, e à mais baixa por ter uma alma doente, o que o leva antes a invejar que sejamos curados do que a auxiliar a nossa cura.
Necessitamos de um Mediador que, estando unido a nós aqui embaixo pela mortalidade do seu corpo, fosse ao mesmo tempo capaz de nos proporcionar auxílio verdadeiramente divino, purificando-nos e libertando-nos por meio da justiça imortal do seu espírito, pela qual permaneceu celestial ainda quando aqui na terra. Longe esteja do Deus incontaminável temer poluição da parte do homem que assumiu, ou da parte dos homens entre os quais viveu na forma de homem.
Pois, ainda que a sua encarnação nada mais nos tivesse mostrado, bastariam estes dois fatos salutares: que a verdadeira divindade não pode ser poluida pela carne, e que os demonios não devem ser considerados melhores do que nos por não terem carne. Este, pois, como diz a Escritura, é o "Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus", de cuja divindade, pela qual é igual ao Pai, e humanidade, pela qual se tornou semelhante a nos, não é este o lugar para falar tão plenamente quanto eu poderia.