A Cidade de Deus - Livro IX 16

Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens

Se é razoável os platônicos afirmarem que os deuses celestes evitam o contato com as coisas terrenas e o convívio com os homens, os quais, por isso, necessitam da intercessão dos demônios

Não é verdadeira aquela opinião que o mesmo platônico afirma ter sido proferida por Platão, a saber, que "nenhum deus mantém convívio com os homens". E esta, diz ele, é a principal prova da exaltação deles: que jamais se contaminam pelo contato com os homens. Admite, portanto, que os demônios se contaminam; e segue-se que não podem purificar aqueles por quem eles próprios são contaminados, e assim todos igualmente se tornam impuros, os demônios por se associarem aos homens, e os homens por adorarem os demônios.
Ou, se dizem que os demônios não se contaminam por se associarem e tratarem com os homens, então são melhores que os deuses, pois os deuses, se assim fizessem, se contaminariam. Porque esta, dizem-nos, é a glória dos deuses: que são tão altamente exaltados que nenhum convívio humano pode mancha-los.
Ele afirma, na verdade, que o Deus supremo, Criador de todas as coisas, a quem chamamos o verdadeiro Deus, é descrito por Platão como o único Deus que a pobreza da linguagem humana não consegue sequer minimamente exprimir; e que até os sábios, quando sua energia mental é tanto quanto possível liberta dos entraves da ligação com o corpo, têm apenas tais lampejos de intuição de Sua natureza como possam ser comparados a um relâmpago que ilumina as trevas.
Se, então, este Deus supremo, que está verdadeiramente exaltado acima de todas as coisas, visita não obstante as mentes dos sábios, quando emancipadas do corpo, com uma presença inteligível e inefável, ainda que isto seja apenas ocasional e como que um rápido lampejo de luz a atravessar as trevas, por que estão os outros deuses tão sublimemente afastados de todo contato com os homens, como se fossem por ele poluídos? Como se não fosse refutação suficiente disto erguer os nossos olhos para aqueles corpos celestes que dão à terra a luz de que ela necessita.
Se as estrelas, embora sejam, segundo o seu relato, deuses visíveis, não se contaminam quando as contemplamos, tampouco se contaminam os demônios quando os homens os veem bem de perto. Mas talvez seja a voz humana, e não o olho, que polui os deuses; e por isso são os demônios designados para mediar e levar as palavras dos homens aos deuses, que se mantêm remotos por medo da poluição? Que direi dos outros sentidos?
Pois pelo olfato nem os demônios, que estão presentes, nem os deuses, ainda que estivessem presentes e inalassem as exalações dos homens vivos, seriam poluídos, se não se contaminam com os eflúvios das carcaças oferecidas em sacrifício. Quanto ao paladar, não os pressiona nenhuma necessidade de reparar a deterioração corporal, de modo a serem reduzidos a pedir alimento aos homens. E o tato está em seu próprio poder. Pois, embora possa parecer que se chame contato porque o sentido do tato está nele especialmente envolvido, todavia os deuses, se o quisessem, poderiam misturar-se com os homens, de modo a ver e ser vistos, ouvir e ser ouvidos; e onde está a necessidade de tocar?
Pois os homens não ousariam desejar isto, se fossem favorecidos com a visão ou a conversa de deuses ou de bons demônios; e se, por curiosidade excessiva, o desejassem, como poderiam realizar o seu intento sem o consentimento do deus ou do demônio, quando não podem tocar nem sequer um pardal, a menos que esteja enjaulado?
Não há, portanto, nada que impeça os deuses de se misturarem sob forma corpórea com os homens, de ver e ser vistos, de falar e ouvir. E se os demônios assim se misturam com os homens, como eu disse, e não são poluídos, ao passo que os deuses, se o fizessem, seriam poluídos, então os demônios estão menos sujeitos à poluição do que os deuses. E se até os demônios se contaminam, como podem ajudar os homens a alcançar a bem-aventurança depois da morte, se, longe de serem capazes de purifica-los e apresenta-los limpos aos deuses impolutos, esses mediadores estão eles próprios poluídos? E se não podem conferir este benefício aos homens, que bem pode fazer a sua amistosa mediação?
Ou será o seu resultado, não que os homens encontrem acesso aos deuses, mas que homens e demônios permaneçam juntos num estado de poluição e, por conseguinte, de exclusão da bem-aventurança? A menos, talvez, que alguém diga que, à maneira de esponjas ou de coisas semelhantes, os próprios demônios, no processo de purificar os seus amigos, se tornam eles mesmos tanto mais imundos quanto mais os outros se tornam limpos. Mas, se esta é a solução, então os deuses, que evitam o contato ou o convívio com os homens por medo da poluição, misturam-se com demônios que são muito mais poluídos.
Ou talvez os deuses, que não podem purificar os homens sem se poluírem a si mesmos, possam sem poluição purificar os demônios que foram contaminados pelo contato humano? Quem pode crer em tais loucuras, a não ser que os demônios tenham exercido sobre ele o seu engano? Se ver e ser visto é contaminação, e se os deuses, a quem o próprio Apuleio chama visíveis, "as brilhantes luzes do mundo", e os demais astros, são vistos pelos homens, havemos de crer que os demônios, que não podem ser vistos a não ser quando lhes apraz, estão mais a salvo da contaminação?
Ou, se é apenas o ver e não o ser visto que contamina, então têm de negar que esses seus deuses, essas brilhantes luzes do mundo, veem os homens quando os seus raios resplandecem sobre a terra. Os seus raios não se contaminam ao incidir sobre toda sorte de poluição, e havemos de supor que os deuses se contaminariam se se misturassem com os homens, e ainda que o contato fosse necessário para socorre-los? Pois contato entre a terra e os raios do sol ou da lua, e contudo isto não polui a luz.