A Cidade de Deus - Livro IX 15

Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens

Sobre o homem Cristo Jesus, o Mediador entre Deus e os homens

Mas se, como é muito mais provável e verossímil, é necessário que todos os homens, enquanto mortais, sejam também miseráveis, devemos buscar um intermediário que não seja apenas homem, mas também Deus, para que, pela interposição de sua bem-aventurada mortalidade, possa conduzir os homens de sua miséria mortal a uma bem-aventurada imortalidade. Nesse intermediário duas coisas são requeridas: que se torne mortal e que não permaneça mortal. De fato, tornou-se mortal, não enfraquecendo a divindade do Verbo, mas assumindo a fraqueza da carne.
Tampouco permaneceu mortal na carne, mas a ressuscitou dentre os mortos; pois é este o próprio fruto de sua mediação: que aqueles para cuja redenção se fez Mediador não permaneçam eternamente na morte corporal. Por isso convinha ao Mediador entre nós e Deus ter ao mesmo tempo uma mortalidade passageira e uma bem-aventurança permanente, a fim de que, por aquilo que é passageiro, se assemelhasse aos mortais, e os transladasse da mortalidade para aquilo que é permanente.
Os anjos bons, portanto, não podem mediar entre os mortais miseráveis e os imortais bem-aventurados, pois eles próprios são também ao mesmo tempo bem-aventurados e imortais; mas os anjos maus podem mediar, porque são imortais como uns e miseráveis como os outros. A estes se opõe o bom Mediador, que, em oposição à imortalidade e à miséria deles, escolheu ser mortal por um tempo e pôde permanecer bem-aventurado na eternidade.
Foi assim que, pela humildade de sua morte e pela benignidade de sua bem-aventurança, destruiu aqueles imortais soberbos e malfazejos miseráveis, e impediu que, com sua jactância de imortalidade, seduzissem à miséria os homens cujos corações purificou pela fé, e que assim libertou de seu domínio impuro.
O homem, pois, mortal e miserável, e tão distante do imortal e do bem-aventurado, que meio escolherá pelo qual possa unir-se à imortalidade e à bem-aventurança? A imortalidade dos demônios, que poderia ter algum encanto para o homem, é miserável; a mortalidade de Cristo, que poderia ofender o homem, não existe. Numa o temor de uma miséria eterna; na outra, a morte, que não podia ser eterna, não pode ser temida, e a bem-aventurança, que é eterna, deve ser amada.
Pois o mediador imortal e miserável interpõe-se para impedir que passemos a uma bem-aventurada imortalidade, porque aquilo que estorva tal passagem, a saber, a miséria, permanece nele; mas o Mediador mortal e bem-aventurado interpôs-se para que, tendo passado pela mortalidade, fizesse imortais os mortais (mostrando seu poder de fazê-lo em sua própria ressurreição), e, de miseráveis, os elevasse à companhia bem-aventurada de cujo número ele mesmo jamais se apartara. Há, portanto, um mediador perverso, que separa os amigos, e um bom Mediador, que reconcilia os inimigos.
E os que separam são numerosos, porque a multidão dos bem-aventurados é bem-aventurada somente por sua participação no único Deus; privados dessa participação, os anjos maus são miseráveis e interpõem-se para estorvar antes que para ajudar a essa bem-aventurança, e por seu próprio número impedem-nos de alcançar aquele único bem beatífico, para obter o qual não precisamos de muitos, mas de um Mediador, o Verbo incriado de Deus, por quem todas as coisas foram feitas, e participando do qual somos bem-aventurados.
Não digo que ele é Mediador porque é o Verbo, pois, como Verbo, é sumamente bem-aventurado e sumamente imortal, e portanto longe está dos mortais miseráveis; mas é Mediador enquanto é homem, pois por sua humanidade nos mostra que, para obter aquele bem bem-aventurado e beatífico, não precisamos buscar outros mediadores que nos conduzam pelos sucessivos degraus dessa conquista, mas que o Deus bem-aventurado e beatífico, tendo-se ele mesmo feito participante de nossa humanidade, ofereceu-nos pronto acesso à participação de sua divindade.
Pois, ao livrar-nos de nossa mortalidade e miséria, não nos conduz aos anjos imortais e bem-aventurados, de modo que nos tornássemos imortais e bem-aventurados participando da natureza deles, mas conduz-nos diretamente àquela Trindade, participando da qual os próprios anjos são bem-aventurados. Portanto, quando escolheu estar na forma de servo, e inferior aos anjos, para ser nosso Mediador, permaneceu superior aos anjos, na forma de Deus: ele mesmo ao mesmo tempo o caminho da vida na terra e a própria vida no céu.