A Cidade de Deus - Livro IX 13

Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens

Como os demônios podem mediar entre deuses e homens, se nada têm em comum com ambos, não sendo bem-aventurados como os deuses, nem miseráveis como os homens

Se, agora, nos esforçamos por encontrar entre esses opostos o meio ocupado pelos demônios, não pode haver dúvida quanto à sua posição local; pois, entre o lugar mais alto e o mais baixo, um lugar que com razão se considera e se denomina o lugar do meio. As outras duas qualidades restam, e a elas devemos dar maior cuidado, para que vejamos se são de todo estranhas aos demônios, ou de que modo lhes são conferidas sem infringir a sua posição mediadora. Podemos descartar a ideia de que lhes sejam estranhas.
Pois não podemos dizer que os demônios, sendo animais racionais, não são nem bem-aventurados nem desventurados, como dizemos das bestas e das plantas, que carecem de sentimento e de razão, ou como dizemos do lugar do meio, que não é nem o mais alto nem o mais baixo. Os demônios, sendo racionais, hão de ser ou miseráveis ou bem-aventurados. E, de igual modo, não podemos dizer que não são nem mortais nem imortais; pois todos os seres vivos ou vivem eternamente ou findam a vida na morte. Além disso, o nosso autor afirmou que os demônios são eternos.
Que nos resta, então, supor, senão que esses seres mediadores se assemelham aos deuses em uma das duas qualidades restantes, e aos homens na outra? Pois, se recebessem ambas do alto, ou ambas de baixo, não seriam mediadores, mas ou se elevariam aos deuses em cima, ou desceriam aos homens embaixo. Portanto, como se demonstrou que devem possuir essas duas qualidades, ocuparão o seu lugar do meio se receberem uma de cada parte.
Por conseguinte, como não podem receber a sua eternidade de baixo, porque ela ali não existe para ser recebida, devem obtê-la do alto; e, assim, não lhes resta outra escolha senão completar a sua posição mediadora aceitando a miséria dos homens.
Segundo os platônicos, pois, os deuses, que ocupam o lugar mais alto, gozam de bem-aventurança eterna, ou de eterna bem-aventurança; os homens, que ocupam o mais baixo, de uma miséria mortal, ou de uma mortalidade miserável; e os demônios, que ocupam o meio, de uma eternidade miserável, ou de uma miséria eterna. Quanto àquelas cinco coisas que Apuleio incluiu na sua definição dos demônios, ele não demonstrou, como prometera, que os demônios são mediadores.
Pois três delas, a saber, que a sua natureza é animal, a sua mente racional, a sua alma sujeita às paixões, ele disse que têm em comum com os homens; uma coisa, a sua eternidade, em comum com os deuses; e uma própria a si mesmos, o seu corpo aéreo. Como, então, são intermediários, quando têm três coisas em comum com o mais baixo, e apenas uma em comum com o mais alto? Quem não que a posição intermediária é abandonada na medida em que eles tendem para o extremo mais baixo, e para ele são rebaixados?
Mas talvez devamos aceitá-los como intermediários por causa da sua única propriedade de um corpo aéreo, visto que os dois extremos têm cada qual o seu próprio corpo, os deuses um corpo etéreo, os homens um corpo terrestre, e porque duas das qualidades que possuem em comum com o homem possuem também em comum com os deuses, a saber, a sua natureza animal e a sua mente racional. Pois o próprio Apuleio, ao falar dos deuses e dos homens, disse: "Tendes duas naturezas animais." E os platônicos costumam atribuir aos deuses uma mente racional.
Restam duas qualidades, a sua sujeição às paixões e a sua eternidade: a primeira das quais têm em comum com os homens, a segunda com os deuses; de sorte que não são nem arrebatados ao extremo mais alto nem rebaixados ao mais baixo, mas perfeitamente equilibrados na sua posição intermediária. Mas, então, é justamente esta circunstância que constitui a miséria eterna, ou a eternidade miserável, dos demônios. Pois aquele que diz que a sua alma está sujeita às paixões teria igualmente dito que eles são miseráveis, se não houvesse corado de vergonha por causa dos seus adoradores.
Além disso, como o mundo é governado, não por um acaso fortuito, mas, como os próprios platônicos confessam, pela providência do Deus supremo, a miséria dos demônios não seria eterna, a menos que a sua maldade fosse grande.
Se, então, os bem-aventurados são corretamente chamados eudemons, os demônios intermediários entre deuses e homens não são eudemons. Qual é, pois, a posição local desses bons demônios, que, acima dos homens mas abaixo dos deuses, prestam auxílio aos primeiros e servem aos segundos? Pois, se são bons e eternos, são sem dúvida bem-aventurados. Mas a bem-aventurança eterna destrói o seu caráter intermediário, conferindo-lhes uma estreita semelhança com os deuses, e separando-os amplamente dos homens.
E, portanto, em vão se esforçarão os platônicos por mostrar como os bons demônios, se são ao mesmo tempo imortais e bem-aventurados, podem com justiça dizer-se que ocupam um lugar do meio entre os deuses, que são imortais e bem-aventurados, e os homens, que são mortais e miseráveis. Pois, se têm tanto a imortalidade quanto a bem-aventurança em comum com os deuses, e nenhuma destas em comum com os homens, que são ao mesmo tempo miseráveis e mortais, não estão antes afastados dos homens e unidos aos deuses, do que intermediários entre eles?
Seriam intermediários se tivessem uma das suas qualidades em comum com uma das partes, e a outra com a outra, assim como o homem é uma espécie de meio entre os anjos e as bestas: sendo a besta um animal irracional e mortal, o anjo um animal racional e imortal, ao passo que o homem, inferior ao anjo e superior à besta, e tendo em comum com uma a mortalidade, e com o outro a razão, é um animal racional e mortal. Assim, quando buscamos um intermediário entre os imortais bem-aventurados e os mortais miseráveis, deveríamos encontrar um ser que fosse ou mortal e bem-aventurado, ou imortal e miserável.