A Cidade de Deus - Livro IX 10
Livro IX: a distinção entre demônios bons e maus e o único Mediador verdadeiro entre Deus e os homens
Que, segundo Plotino, os homens, cujo corpo é mortal, são menos infelizes do que os demônios, cujo corpo é eterno
Plotino, cuja memória é bem recente, goza da reputação de ter compreendido Platão melhor do que qualquer outro de seus discípulos. Falando das almas humanas, ele diz: "O Pai, em sua compaixão, fez mortais os laços delas"; isto é, ele considerava devido à misericórdia do Pai que os homens, tendo um corpo mortal, não ficassem para sempre confinados na miséria desta vida. Mas dessa misericórdia os demônios foram julgados indignos, e eles receberam, juntamente com uma alma sujeita às paixões, um corpo não mortal como o do homem, mas eterno.
Pois eles deveriam ser mais felizes do que os homens se tivessem, como os homens, um corpo mortal e, como os deuses, uma alma bem-aventurada. E deveriam ser iguais aos homens se, juntamente com uma alma miserável, ao menos tivessem recebido, como os homens, um corpo mortal, de modo que a morte pudesse tê-los libertado de seus males, contanto que, pelo menos, alcançassem algum grau de piedade.
Mas, como estão as coisas, eles não são apenas em nada mais felizes do que os homens, tendo, como eles, uma alma miserável; são também mais infelizes, por estarem eternamente ligados ao corpo. Pois Plotino não nos deixa inferir que, por algum progresso em sabedoria e piedade, eles possam tornar-se deuses, mas afirma expressamente que são demônios para sempre.