A Cidade de Deus - Livro IV 8

Livro IV: que o império foi dado a Roma pelo único Deus verdadeiro, não pelos deuses pagãos

Quais deuses os romanos podem supor que presidiram ao crescimento e à conservação de seu império, quando creram que mal se podia confiar a deuses isolados o cuidado de coisas isoladas

Em seguida, perguntemos, se lhes apraz, dentre tão grande multidão de deuses que os romanos adoram, a qual em especial, ou a quais deuses, eles creem que se deva a ampliação e a conservação daquele império. Ora, certamente desta obra, que é tão excelente e tão repleta da mais alta dignidade, não ousam atribuir parte alguma à deusa Cloacina; ou a Volúpia, que tira sua denominação da volúpia; ou a Libentina, que tira seu nome da concupiscência; ou a Vaticano, que preside aos vagidos dos recém-nascidos; ou a Cunina, que rege os seus berços.
Mas como seria possível enumerar em uma parte deste livro todos os nomes de deuses ou deusas, que eles mal conseguiram comportar em grandes volumes, distribuindo entre essas divindades seus ofícios particulares acerca de cada coisa? Nem ao menos julgaram que o encargo de suas terras devesse ser confiado a um único deus, mas confiaram suas propriedades rurais a Rusina; as cristas dos montes, a Jugatino; sobre as colinas puseram a deusa Colatina; sobre os vales, Valônia.
Nem sequer puderam encontrar uma Segécia tão competente, que pudessem confiar ao seu cuidado todas as suas searas de uma vez; mas, enquanto a semente ainda estava sob a terra, queriam que a deusa Seia estivesse posta sobre ela; depois, sempre que estava acima do solo e formava a haste, punham sobre ela a deusa Segécia; e quando o grão era colhido e armazenado, punham sobre ele a deusa Tutilina, para que fosse guardado em segurança. Quem não teria julgado que a deusa Segécia bastava para cuidar das messes em até que houvessem passado das primeiras folhas verdes às espigas secas?
Contudo, ela não bastava para os homens, que amavam uma multidão de deuses, de modo que a alma miserável, desprezando o casto abraço do único Deus verdadeiro, fosse prostituída a uma turba de demônios.
Por isso puseram Prosérpina sobre as sementes que germinam; sobre as juntas e nós das hastes, o deus Nodoto; sobre as bainhas que envolvem as espigas, a deusa Volutina; quando as bainhas se abriam para que a espiga brotasse, isso era atribuído à deusa Patelana; quando as hastes se erguiam todas iguais com as novas espigas, porque os antigos descreviam essa igualação pelo termo hostire, isso era atribuído à deusa Hostilina; quando o grão estava em flor, era dedicado à deusa Flora; quando cheio de leite, ao deus Lacturno; quando amadurecia, à deusa Matuta; quando a colheita era sachada, isto é, removida do solo, à deusa Runcina.
Nem ainda os enumero a todos, pois estou enfastiado de tudo isso, embora a eles não cause vergonha alguma. Apenas disse estas pouquíssimas coisas, para que se compreenda que de modo algum ousam dizer que o império romano foi estabelecido, ampliado e conservado por suas divindades, às quais foram designadas funções tão próprias, que a nenhuma delas se confiou uma supervisão geral. Quando, portanto, poderia Segécia cuidar do império, ela a quem não se permitia cuidar das searas e das árvores? Quando poderia Cunina ocupar-se da guerra, ela cuja supervisão não tinha licença de ir além dos berços dos bebês?
Quando poderia Nodoto dar auxílio na batalha, ele que nada tinha a ver sequer com a bainha da espiga, mas somente com os nós das juntas? Cada um põe um porteiro à porta de sua casa, e, por ser homem, ele é inteiramente suficiente; mas esta gente pôs três deuses: Fórculo às portas, Cardeia à dobradiça, Limentino ao limiar. Assim, Fórculo não podia ao mesmo tempo cuidar também da dobradiça e do limiar.