A Cidade de Deus - Livro IV 7

Livro IV: que o império foi dado a Roma pelo único Deus verdadeiro, não pelos deuses pagãos

Se os reinos terrenos, em sua ascensão e queda, foram auxiliados ou abandonados pela ajuda dos deuses

Se aquele reino foi tão grande e tão duradouro sem o auxílio dos deuses, por que se de atribuir aos deuses romanos a vasta extensão e a longa duração do Império Romano? Pois, qualquer que seja a causa num caso, a mesma de ser também no outro. Mas, se sustentam que a prosperidade daquele reino também deve ser atribuída ao auxílio dos deuses, pergunto: de quais deuses? Pois as outras nações que Nino subjugou não adoravam, então, outros deuses.
Ou, se os assírios tinham deuses próprios, que eram, por assim dizer, artífices mais hábeis na construção e na preservação do império, acaso estão mortos, visto que eles próprios também perderam o império? Ou, tendo sido defraudados de seu salário, ou prometido um maior, preferiram antes passar para os medos, e destes novamente para os persas, porque Ciro os convidou e lhes prometeu algo ainda mais vantajoso?
Esta nação, com efeito, desde o tempo do reino de Alexandre, o Macedônio, que foi tão breve em duração quanto vasto em extensão, conservou o seu próprio império, e ainda hoje ocupa não pequenos territórios no Oriente.
Se assim é, então ou os deuses são infiéis, pois abandonam os seus e passam para os seus inimigos, o que Camilo, que era apenas um homem, não fez quando, sendo vencedor e debelador de um Estado dos mais hostis, ainda que tivesse sentido que Roma, por quem tanto fizera, fora ingrata, contudo, depois, esquecendo a injúria e lembrando-se da pátria, livrou-a outra vez dos gauleses; ou então não são tão fortes quanto deveriam ser os deuses, visto que podem ser vencidos pela habilidade ou pela força humana.
Ou, se, quando guerreiam entre si, os deuses não são vencidos pelos homens, mas alguns deuses próprios de certas cidades são porventura vencidos por outros deuses, segue-se que têm contendas entre si, que cada um sustenta por sua própria parte. Portanto, uma cidade não deveria adorar os seus próprios deuses, mas antes outros que auxiliam os seus adoradores.
Por fim, qualquer que tenha sido o caso quanto a essa mudança de lado, ou fuga, ou migração, ou derrota em batalha por parte dos deuses, o nome de Cristo ainda não havia sido proclamado naquelas partes da terra quando esses reinos foram perdidos e transferidos por meio de grandes destruições na guerra.
Pois se, mais de mil e duzentos anos atrás, quando o reino foi tirado dos assírios, a religião cristã tivesse ali pregado um outro reino eterno e posto fim ao culto sacrílego dos deuses falsos, que outra coisa teriam dito os homens insensatos daquela nação, senão que o reino que por tanto tempo fora conservado não poderia ser perdido por nenhuma outra causa senão o abandono de suas próprias religiões e a recepção do cristianismo?
Nesse discurso insensato, que poderia ter sido proferido, observem aqueles de quem falamos a sua própria imagem, e corem, se neles algum senso de pudor, porque proferiram queixas semelhantes; ainda que o Império Romano esteja antes afligido do que mudado, coisa que lhe sobreveio também em outros tempos, antes que o nome de Cristo fosse ouvido, e foi restaurado após tal aflição, coisa que mesmo nestes tempos não se deve desesperar de alcançar. Pois quem conhece a vontade de Deus a respeito desta matéria?