A Cidade de Deus - Livro IV 23
Livro IV: que o império foi dado a Roma pelo único Deus verdadeiro, não pelos deuses pagãos
A respeito da Felicidade, a quem os romanos, que veneram muitos deuses, por longo tempo não cultuaram com honra divina, embora ela sozinha bastasse no lugar de todos
Mas como acontece, se os seus livros e ritos são verdadeiros, e se a Felicidade é uma deusa, que ela mesma não seja designada como a única a ser cultuada, visto que poderia conceder todas as coisas e, de uma só vez, tornar os homens felizes? Pois quem deseja qualquer outra coisa por outra razão senão para tornar-se feliz? Por que se deixou a Lúculo dedicar um templo a tão grande deusa em data tão tardia, e depois de tantos governantes romanos? Por que o próprio Rômulo, ambicioso como era de fundar uma cidade afortunada, não erigiu antes de todos um templo a essa deusa?
Por que ele suplicava algo aos outros deuses, se nada lhe teria faltado caso ela estivesse com ele? Pois nem ele mesmo teria sido primeiro um rei, e depois, como pensam, um deus, se essa deusa não lhe houvesse sido propícia. Por que, então, designou como deuses para os romanos a Jano, Jove, Marte, Pico, Fauno, Tiberino, Hércules e outros, se havia mais deles? Por que Tito Tácio acrescentou Saturno, Ops, Sol, Lua, Vulcano, Luz e quaisquer outros que acrescentou, entre os quais estava até a deusa Cloacina, enquanto a Felicidade era negligenciada? Por que Numa designou tantos deuses e tantas deusas sem esta?
Seria talvez porque ele não conseguia avistá-la em meio a tão grande multidão? Decerto o rei Hostílio não teria introduzido os novos deuses Temor e Pavor para serem aplacados, se pudesse ter conhecido ou pudesse ter cultuado essa deusa. Pois, na presença da Felicidade, Temor e Pavor teriam desaparecido: não digo aplacados, mas postos em fuga. Em seguida, pergunto: como é que o império romano já havia crescido imensamente antes que alguém cultuasse a Felicidade? Era, então, o império mais grande do que feliz? Pois como poderia haver ali verdadeira felicidade, onde não havia verdadeira piedade?
Pois a piedade é o genuíno culto ao Deus verdadeiro, e não o culto a tantos demônios quantos são os falsos deuses. Contudo, mesmo depois, quando a Felicidade já havia sido admitida no número dos deuses, sobreveio a grande infelicidade das guerras civis. Estaria a Felicidade porventura justamente indignada, tanto por ter sido convidada tão tarde quanto por ter sido convidada não para honra, mas antes para opróbrio, porque junto com ela eram cultuados Príapo, e Cloacina, e Temor e Pavor, e a Febre, e outros que não eram deuses dignos de culto, mas os crimes dos próprios adoradores?
Por fim, se parecia bom cultuar tão grande deusa junto com uma multidão tão indigna, por que ao menos não foi cultuada de modo mais honroso do que as demais? Pois não é intolerável que a Felicidade não esteja colocada nem entre os deuses Consentes, que eles alegam ser admitidos ao conselho de Júpiter, nem entre os deuses que denominam Seletos? Algum templo poderia fazer-se para ela que fosse preeminente, tanto na elevação do sítio quanto na dignidade do estilo. Por que, na verdade, não algo melhor do que se faz para o próprio Júpiter? Pois quem deu o reino até a Júpiter senão a Felicidade? Suponho que, quando ele reinava, era feliz.
A Felicidade, porém, é certamente mais valiosa do que um reino. Pois ninguém duvida de que se possa facilmente encontrar um homem que tema ser feito rei; mas não se encontra ninguém que não queira ser feliz. Portanto, se se pensa que eles podem ser consultados por augúrio, ou de qualquer outro modo, os próprios deuses deveriam ser consultados acerca desta coisa: se quereriam ceder lugar à Felicidade.
Se, porventura, o lugar já estivesse ocupado pelos templos e altares de outros, onde um templo maior e mais elevado pudesse ser construído à Felicidade, até o próprio Júpiter poderia ceder, de modo que a Felicidade antes obtivesse o próprio cume da colina do Capitólio. Pois não há ninguém que resistisse à Felicidade, exceto, o que é impossível, alguém que quisesse ser infeliz. Decerto, se fosse consultado, Júpiter de modo algum faria o que aqueles três deuses, Marte, Término e Juventas, fizeram, os quais positivamente recusaram ceder lugar ao seu superior e rei.
Pois, como registram os seus livros, quando o rei Tarquínio quis construir o Capitólio, e percebeu que o lugar que lhe parecia mais digno e adequado estava previamente ocupado por outros deuses, não ousando fazer nada contrário ao prazer deles, e crendo que de bom grado cederiam lugar a um deus que era tão grande e era seu próprio senhor, porque havia muitos deles ali quando o Capitólio foi fundado, ele inquiriu por augúrio se escolhiam ceder lugar a Júpiter, e todos estavam dispostos a remover-se dali, exceto aqueles que nomeei, Marte, Término e Juventas; e por isso o Capitólio foi edificado de tal modo que esses três também estivessem dentro dele, contudo com sinais tão obscuros que mesmo os homens mais doutos dificilmente poderiam saber disto.
Certamente, então, o próprio Júpiter de modo algum desprezaria a Felicidade, como ele mesmo foi desprezado por Término, Marte e Juventas. Mas até eles próprios, que não haviam cedido lugar a Júpiter, certamente cederiam lugar à Felicidade, que fizera Júpiter rei sobre eles. Ou, se não cedessem lugar, agiriam assim não por desprezo dela, mas porque escolheriam antes ser obscuros na casa da Felicidade do que ser eminentes sem ela em seus próprios lugares.
Assim, estando a deusa Felicidade estabelecida no maior e mais elevado lugar, os cidadãos aprenderiam de onde se deveria buscar o favorecimento de todo bom desejo. E assim, pela persuasão da própria natureza, abandonada a supérflua multidão dos outros deuses, somente a Felicidade seria cultuada, somente a ela se faria oração, somente o seu templo seria frequentado pelos cidadãos que quisessem ser felizes, o que nenhum deles deixaria de querer; e desse modo a felicidade, que era buscada de todos os deuses, seria buscada apenas dela mesma.
Pois quem deseja receber de algum deus qualquer outra coisa senão a felicidade, ou aquilo que supõe conduzir à felicidade? Por isso, se a Felicidade tem em seu poder estar com o homem que lhe agrada (e ela o tem, se é uma deusa), que tolice é, afinal, buscar de qualquer outro deus aquela que podes obter a pedido dela mesma! Portanto, deveriam honrar essa deusa acima dos outros deuses, até mesmo pela dignidade do lugar. Pois, como lemos em seus próprios autores, os antigos romanos prestavam maiores honras a não sei que Sumano, a quem atribuíam os raios noturnos, do que a Júpiter, a quem se tinha por pertencer os raios diurnos.
Mas, depois que um templo famoso e notável foi construído a Júpiter, em razão da dignidade do edifício, a multidão acorria a ele em número tão grande que dificilmente se pode encontrar alguém que se lembre sequer de ter lido o nome de Sumano, o qual agora não consegue uma única vez ouvir nomeado. Mas, se a Felicidade não é uma deusa, porque, como é verdade, ela é um dom de Deus, deve-se buscar aquele Deus que tem poder de concedê-la, e deve-se abandonar aquela nociva multidão de falsos deuses que a vã multidão dos homens insensatos persegue, fazendo para si deuses dos dons de Deus, e ofendendo a Ele mesmo, de quem são os dons, pela obstinação de uma vontade soberba.
Pois não pode estar livre da infelicidade quem cultua a Felicidade como uma deusa e abandona a Deus, o doador da felicidade; assim como não pode estar livre da fome quem lambe um pão pintado e não o compra do homem que tem um pão verdadeiro.