A Cidade de Deus - Livro IV 21
Livro IV: que o império foi dado a Roma pelo único Deus verdadeiro, não pelos deuses pagãos
Que, embora não os reconhecessem como dons de Deus, deveriam ao menos ter-se contentado com a Virtude e a Felicidade
A estas, não a verdade, mas a vaidade fez deusas. Pois são dons do verdadeiro Deus, e não em si mesmas deusas. Contudo, onde estão a virtude e a felicidade, que mais se busca? Que pode bastar ao homem a quem a virtude e a felicidade não bastam? Pois certamente a virtude abrange todas as coisas que devemos fazer, e a felicidade todas as coisas que devemos desejar. Se, portanto, Júpiter era adorado para que desse estas duas coisas (porque, se a extensão e a duração do império é algo bom, isso pertence a esta mesma felicidade), por que não se compreende que elas não são deusas, mas os dons de Deus?
Mas se são julgadas deusas, então ao menos não se deveria buscar aquela outra grande multidão de deuses. Pois, considerados todos os ofícios que a fantasia deles distribuiu entre os vários deuses e deusas, que descubram, se puderem, alguma coisa que pudesse ser concedida por qualquer deus a um homem que possua a virtude e possua a felicidade. Que instrução se poderia buscar, seja de Mercúrio, seja de Minerva, quando a Virtude já possuía tudo em si mesma? A virtude, de fato, é definida pelos antigos como a própria arte de viver bem e retamente.
Daí, porque a virtude se chama em grego ἀρετὴ (areté), pensou-se que os latinos dela derivaram o termo arte (ars). Mas se a Virtude só pode vir aos perspicazes, que necessidade havia do deus Pai Cácio, que devia tornar os homens cautos, isto é, argutos, quando a Felicidade poderia conferir isso? Porque nascer perspicaz pertence à felicidade. Donde, embora a deusa Felicidade não pudesse ser adorada por quem ainda não nascera, a fim de que, tornada sua amiga, lhe concedesse isso, contudo poderia conferir este favor aos pais que fossem seus adoradores, de modo que lhes nascessem filhos perspicazes.
Que necessidade tinham as mulheres no parto de invocar Lucina, quando, se a Felicidade estivesse presente, teriam não só um bom parto, mas também bons filhos?
Que necessidade havia de encomendar os filhos à deusa Ops quando estavam nascendo; ao deus Vaticano no seu primeiro vagido; à deusa Cunina quando deitados no berço; à deusa Rumina quando mamavam; ao deus Statilino quando se punham de pé; à deusa Adeona quando vinham; a Abeona quando se iam; à deusa Mente para que tivessem boa mente; ao deus Volumno e à deusa Volumna para que desejassem coisas boas; aos deuses nupciais para que fizessem bons casamentos; aos deuses rurais, e principalmente à própria deusa Frutesca, para que recebessem os frutos mais abundantes; a Marte e a Belona para que fizessem bem a guerra; à deusa Vitória para que fossem vitoriosos; ao deus Honra para que fossem honrados; à deusa Pecúnia para que tivessem dinheiro em abundância; ao deus Esculano e a seu filho Argentino para que tivessem moeda de bronze e de prata?
Pois estabeleceram Esculano como pai de Argentino por esta razão: que a moeda de bronze começou a ser usada antes da de prata. Mas admira-me que Argentino não tenha gerado Aurino, já que também veio depois a moeda de ouro. Pudessem tê-lo como deus, e prefeririam Aurino tanto a seu pai Argentino quanto a seu avô Esculano, assim como antepõem Jove a Saturno.
Portanto, que necessidade havia, por causa destes dons, fossem da alma, do corpo ou dos bens externos, de adorar e invocar tão grande multidão de deuses, dos quais nem a todos mencionei, nem eles próprios puderam prover a todos os benefícios humanos, minuciosa e singularmente repartidos em deuses miúdos e singulares, quando a única deusa Felicidade era capaz, com a maior facilidade, de conceder todos eles de uma só vez? Nem se deveria buscar qualquer outro, seja para a concessão dos bens, seja para o afastamento dos males.
Pois por que haveriam de invocar a deusa Fessônia para os cansados; para repelir os inimigos, a deusa Pelônia; para os enfermos, como médico, ou Apolo ou Esculápio, ou ambos juntos se houvesse grande perigo? Nem se deveria suplicar ao deus Espiniense que arrancasse os espinhos dos campos, nem à deusa Robigo que a ferrugem não viesse: estando presente e guardando somente a Felicidade, ou nenhum mal teria surgido, ou facilmente teria sido afastado. Por fim, já que tratamos destas duas deusas, a Virtude e a Felicidade, se a felicidade é a recompensa da virtude, ela não é deusa, mas um dom de Deus.
Mas se ela é deusa, por que não se poderá dizer que ela confere a própria virtude, visto que é grande felicidade alcançar a virtude?