A Cidade de Deus - Livro IV 20

Livro IV: que o império foi dado a Roma pelo único Deus verdadeiro, não pelos deuses pagãos

Sobre a Virtude e a Fé, que os pagãos honraram com templos e ritos sagrados, deixando de lado outras boas qualidades, que igualmente deveriam ter sido cultuadas, se a divindade lhes fosse corretamente atribuída.

Fizeram também da Virtude uma deusa, a qual, na verdade, se pudesse ser deusa, seria preferível a muitas outras. E agora, porque ela não é uma deusa, mas um dom de Deus, que se obtenha pela oração dirigida Àquele que é o único que a pode conceder, e toda a multidão dos falsos deuses se desvanece. Mas por que se crê que a seja uma deusa, e por que ela própria recebe templo e altar? Pois quem prudentemente a reconhece faz de si mesmo a morada dela. Mas como sabem o que é a fé, cuja primeira e maior função é que se creia no verdadeiro Deus? Porém, por que não bastara a virtude? Não inclui ela também a fé?
Visto que julgaram conveniente distribuir a virtude em quatro divisões, prudência, justiça, fortaleza e temperança, e como cada uma dessas divisões tem as suas próprias virtudes, a está entre as partes da justiça, e tem o lugar principal para tantos de nós quantos sabem o que significa aquela palavra: "O justo viverá pela fé." Mas, se a é uma deusa, admira-me por que esses ardentes amantes de uma multidão de deuses ofenderam tantas outras deusas, deixando-as de lado, quando lhes poderiam ter dedicado templos e altares do mesmo modo. Por que a temperança não mereceu ser uma deusa, quando alguns príncipes romanos alcançaram não pequena glória por causa dela?
Por que, enfim, a fortaleza não é uma deusa, ela que socorreu Múcio quando lançou a mão direita às chamas; que socorreu Cúrcio, quando, pelo bem da pátria, se atirou de cabeça no abismo aberto na terra; que socorreu Décio, o pai, e Décio, o filho, quando se consagraram pelo exército? Embora pudéssemos perguntar se esses homens tiveram verdadeira fortaleza, se isso dissesse respeito à nossa presente discussão. Por que a prudência e a sabedoria não mereceram lugar algum entre os deuses? Será porque todas são cultuadas sob o nome geral da própria Virtude? Então poderiam, desse modo, cultuar também o verdadeiro Deus, do qual se julga que todos os outros deuses são partes.
Mas naquele único nome de virtude está compreendida tanto a quanto a castidade, as quais, contudo, obtiveram altares separados em templos próprios.