A Cidade de Deus - Livro IV 18
Livro IV: que o império foi dado a Roma pelo único Deus verdadeiro, não pelos deuses pagãos
Com que razão os que julgam a Felicidade e a Fortuna deusas as distinguiram entre si
Que diremos, ademais, da ideia de que também a Felicidade é uma deusa? Recebeu um templo; mereceu um altar; rendem-se-lhe ritos de culto apropriados. Só ela, então, deveria ser adorada. Pois, onde ela está presente, que coisa boa pode estar ausente? Mas o que pretende um homem, ao julgar que também a Fortuna é uma deusa e ao adorá-la? Acaso a felicidade é uma coisa, e a fortuna, outra? A fortuna, de fato, pode ser tanto má quanto boa; mas a felicidade, se pudesse ser má, não seria felicidade. Certamente devemos julgar que todos os deuses de um e de outro sexo (se é que também têm sexo) são unicamente bons.
Isto diz Platão; isto dizem os demais filósofos; isto dizem todos os governantes dignos de estima da república e das nações. Como é, então, que a deusa Fortuna ora é boa, ora é má? Será, porventura, que, quando é má, não é uma deusa, mas subitamente se transforma em demônio maligno? Quantas Fortunas há, então? Tantas quantas são os homens afortunados, isto é, os de boa fortuna. Mas, como deve também haver muitíssimos outros que, no mesmíssimo instante, são homens de má fortuna, poderia ela, sendo uma só e a mesma Fortuna, ser ao mesmo tempo má e boa, a uma para estes, a outra para aqueles?
Aquela que é a deusa, é sempre boa? Então ela própria é a felicidade. Por que, pois, lhe são dados dois nomes? Contudo, isto é tolerável; pois é costume que uma só coisa seja chamada por dois nomes. Mas por que templos diferentes, altares diferentes, rituais diferentes? Há uma razão, dizem eles, porque a Felicidade é aquela que os bons possuem por mérito anterior; mas a fortuna, que se chama boa sem qualquer prova de mérito, sobrevém fortuitamente tanto aos bons quanto aos maus, donde também é chamada Fortuna. Como, portanto, é boa aquela que, sem discernimento algum, vem tanto aos bons quanto aos maus?
Por que é adorada aquela que assim é cega, correndo ao acaso sobre qualquer um que seja, de modo que, na maior parte das vezes, passa ao largo de seus adoradores e se apega aos que a desprezam? Ou, se seus adoradores algo lucram, de sorte que são vistos por ela e amados, então ela segue o mérito, e não vem fortuitamente. Que se faz, então, daquela definição de fortuna? Que se faz da opinião de que ela recebeu o seu próprio nome dos acontecimentos fortuitos? Pois de nada aproveita adorá-la, se ela é verdadeiramente fortuna. Mas, se ela distingue os seus adoradores, de modo a beneficiá-los, então não é fortuna.
Ou será que também Júpiter a envia para onde lhe apraz? Então adore-se a ele somente; porque a Fortuna não é capaz de lhe resistir quando ele a ordena e a envia para onde lhe apraz. Ou, ao menos, adorem-na os maus, que não escolhem ter mérito pelo qual a deusa Felicidade pudesse ser convidada.