A Cidade de Deus - Livro IV 15

Livro IV: que o império foi dado a Roma pelo único Deus verdadeiro, não pelos deuses pagãos

Se convém aos homens bons desejar dominar mais amplamente

Perguntem, então, se é de fato adequado que os homens bons se alegrem com um império mais extenso. Pois a iniquidade daqueles contra quem se travam guerras justas favorece o crescimento de um reino, o qual certamente teria sido pequeno se a paz e a justiça dos vizinhos não houvessem, por alguma injúria, provocado o desencadeamento da guerra contra eles. Sendo assim mais felizes os assuntos humanos, todos os reinos seriam pequenos, alegrando-se na concórdia entre vizinhos; e desse modo haveria muitíssimos reinos de nações no mundo, assim como muitíssimas casas de cidadãos numa cidade.
Portanto, fazer guerra e estender um reino sobre nações inteiramente subjugadas parece aos homens maus ser felicidade, e aos homens bons, necessidade. Mas, porque seria pior que os injustos dominassem sobre aqueles que são mais justos, por isso também isso não se chama impropriamente felicidade. Sem dúvida alguma, porém, é maior felicidade ter um bom vizinho em paz do que subjugar um mau fazendo-lhe guerra. Maus são os teus desejos quando anseias que aquele a quem odeias ou temes esteja em tal condição que possas vencê-lo.
Se, portanto, ao travar guerras que fossem justas, e não ímpias ou injustas, os romanos puderam adquirir tão grande império, não deveriam eles adorar como deusa até mesmo a injustiça dos estrangeiros? Pois vemos que isso muito cooperou para estender o império, ao tornar os estrangeiros tão injustos que se converteram em povos contra quem se podiam travar guerras justas, e assim o império se ampliou. E por que não poderia a injustiça, ao menos a das nações estrangeiras, ser também uma deusa, se o Medo e o Terror, e a Febre mereceram ser deuses romanos?
Por esses dois, portanto, isto é, pela injustiça estrangeira e pela deusa Vitória (pois a injustiça suscita as causas das guerras, e a Vitória conduz essas mesmas guerras a um desfecho feliz), o império cresceu, ainda que Júpiter tenha permanecido ocioso. Pois que parte poderia ter Júpiter aqui, quando aquelas coisas que se poderiam julgar benefícios seus são tidas por deuses, chamadas deuses, adoradas como deuses, e elas mesmas invocadas, cada uma por sua parte? Também ele poderia ter alguma parte aqui, se ele próprio fosse chamado Império, assim como ela é chamada Vitória. Ou, se o império é dom de Júpiter, por que não se de ter também a vitória por dom seu?
E certamente assim se teria, se ele fosse reconhecido e adorado não como uma pedra no Capitólio, mas como o verdadeiro Rei dos reis e Senhor dos senhores.