A Cidade de Deus - Livro III 6

Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses

Que os deuses não exigiram pena alguma pelo fratricídio de Rômulo

Acrescento outro exemplo. Se os pecados dos homens de tal modo irritaram aquelas divindades, que abandonaram Troia ao fogo e à espada para punir o crime de Páris, o assassínio do irmão de Rômulo deveria tê-las irritado mais contra os romanos do que as lisonjas de um marido grego as comoveram contra os troianos: o fratricídio numa cidade recém-nascida deveria tê-las provocado mais do que o adultério numa cidade florescente. Não faz diferença para a questão que ora discutimos se foi Rômulo quem ordenou que seu irmão fosse morto, ou se o matou com a própria mão: crime este último que muitos sem pejo negam, muitos por vergonha põem em dúvida, muitos com pesar disfarçam.
E não nos deteremos a examinar e pesar os testemunhos dos escritores de história sobre o assunto. Todos concordam em que o irmão de Rômulo foi morto, não por inimigos, não por estranhos. Se foi Rômulo quem ordenou ou perpetrou este crime, Rômulo era mais verdadeiramente o chefe dos romanos do que Páris dos troianos; por que, então, aquele que raptou a esposa de outro homem atraiu a ira dos deuses sobre os troianos, ao passo que aquele que tirou a vida do próprio irmão obteve a guarda desses mesmos deuses?
Se, por outro lado, esse crime não foi cometido nem pela mão nem pela vontade de Rômulo, então a cidade inteira é por ele responsável, porque não cuidou de puni-lo, e assim cometeu não fratricídio, mas parricídio, que é pior. Pois ambos os irmãos foram os fundadores daquela cidade, da qual um deles, por vilania, foi impedido de ser governante.
Tanto quanto vejo, portanto, nenhum mal pode ser atribuído a Troia que justificasse os deuses por abandoná-la à destruição, nem bem algum a Roma que explique por que os deuses a visitaram com prosperidade; a menos que a verdade seja esta: que fugiram de Troia porque foram vencidos, e se dirigiram a Roma para ali praticar seus enganos característicos. Não obstante, conservaram um em Troia, para que pudessem iludir os futuros habitantes que repovoassem aquelas terras; ao passo que em Roma, por um exercício mais amplo de suas artes malignas, exultaram com honras mais abundantes.