A Cidade de Deus - Livro III 7
Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses
Da destruição de Ílion por Fímbria, legado de Mário
E por certo podemos perguntar que mal havia feito a pobre Ílion, para que, no primeiro ardor das guerras civis de Roma, ela viesse a sofrer, pela mão de Fímbria, o mais vil dos partidários de Mário, uma destruição mais feroz e cruel do que o saque grego. Pois, quando os gregos a tomaram, muitos escaparam, e a muitos que não escaparam foi permitido viver, ainda que no cativeiro. Mas Fímbria, desde o princípio, deu ordens para que vida alguma fosse poupada, e queimou juntos a cidade e todos os seus habitantes.
Assim foi Ílion paga, não pelos gregos, a quem ela havia provocado com sua iniquidade, mas pelos romanos, que haviam sido edificados a partir de suas ruínas; enquanto os deuses, adorados igualmente por ambos os lados, simplesmente nada fizeram, ou, para falar com mais correção, nada puderam fazer. Será, então, verdade que também nesta ocasião, depois que Troia havia reparado o dano causado pelo fogo grego, todos os deuses por cujo auxílio o reino se mantinha de pé 'abandonaram cada templo, cada santuário sagrado'?
Mas, se assim é, pergunto a razão; pois, a meu juízo, a conduta dos deuses era tão digna de reprovação quanto a dos habitantes da cidade era digna de aplauso. Pois estes fecharam suas portas contra Fímbria, para que pudessem preservar a cidade para Sila, e por isso foram queimados e consumidos pelo general enfurecido. Ora, até este momento, a causa de Sila era a mais digna das duas; pois até então ele empregava as armas para restaurar a república, e suas boas intenções ainda não haviam sofrido reveses. Que coisa melhor, pois, poderiam ter feito os troianos?
Que coisa mais honrosa, mais fiel a Roma, ou mais digna de seu parentesco, do que preservar sua cidade para a melhor parte dos romanos, e fechar suas portas contra um parricida de sua pátria? Cabe aos defensores dos deuses considerar a ruína que esta conduta trouxe sobre Troia. Os deuses desertaram um povo adúltero, e abandonaram Troia aos fogos dos gregos, para que de suas cinzas se erguesse uma Roma mais casta. Mas por que abandonaram pela segunda vez esta mesma cidade, agora aliada de Roma, que não fazia guerra à sua nobre filha, mas guardava uma firmíssima e piedosa fidelidade à mais justificável facção de Roma?
Por que a entregaram para ser destruída, não pelos heróis gregos, mas pelo mais vil dos romanos? Ou, se os deuses não favoreciam a causa de Sila, pela qual os infelizes troianos mantinham sua cidade, por que eles mesmos predisseram e prometeram a Sila tais êxitos? Devemos chamá-los aduladores dos afortunados, antes que socorredores dos desventurados? Não foi, portanto, porque os deuses a desertaram que Troia foi destruída. Pois os demônios, sempre vigilantes para enganar, fizeram o que podiam.
Pois, quando todas as estátuas foram derrubadas e queimadas juntamente com a cidade, conta-nos Lívio que somente a imagem de Minerva se diz ter sido encontrada de pé, incólume, em meio às ruínas de seu templo; não para que se dissesse em seu louvor, 'os deuses que tornaram divino este reino', mas para que não se dissesse em sua defesa que eles estavam 'idos de cada templo, de cada santuário sagrado': pois aquele prodígio lhes foi permitido, não para que se provasse serem poderosos, mas para que fossem convencidos de estarem presentes.