A Cidade de Deus - Livro III 30
Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses
Do encadeamento das guerras que, com grande severidade e frequência, se sucederam umas às outras antes da vinda de Cristo
Com que descaramento, então, com que segurança, com que insolência, com que loucura, ou antes, com que insânia, recusam eles imputar esses desastres aos seus próprios deuses, e imputam ao nosso Cristo os males presentes!
Essas sangrentas guerras civis, mais aflitivas, por confissão dos próprios historiadores deles, do que quaisquer guerras estrangeiras, e que foram declaradas não apenas calamitosas, mas absolutamente ruinosas para a república, começaram muito antes da vinda de Cristo, e geraram-se umas às outras; de modo que uma concatenação de causas injustificáveis conduziu das guerras de Mário e Sila às de Sertório e Catilina, dos quais um foi proscrito e o outro criado por Sila; daí à guerra de Lépido e Cátulo, dos quais um desejava anular e o outro defender os atos de Sila; daí à guerra de Pompeu e César, dos quais Pompeu havia sido partidário de Sila, cujo poder igualou ou mesmo superou, enquanto César condenava o poder de Pompeu por não ser o seu próprio, e contudo o excedeu quando Pompeu foi derrotado e morto.
A partir dele, a cadeia das guerras civis estendeu-se ao segundo César, depois chamado Augusto, em cujo reinado Cristo nasceu. Pois até o próprio Augusto travou muitas guerras civis; e nelas pereceram muitos dos homens mais eminentes, entre eles aquele hábil manipulador da república, Cícero. Caio César, depois de haver vencido Pompeu, embora usasse da vitória com clemência e concedesse aos homens da facção contrária tanto a vida quanto as honras, foi suspeito de aspirar à realeza, e foi assassinado na cúria por um grupo de nobres senadores que haviam conspirado para defender a liberdade da república.
Seu poder foi então cobiçado por Antônio, homem de caráter muito diverso, maculado e degradado por toda espécie de vício, ao qual Cícero resistiu energicamente sob o mesmo pretexto de defender a liberdade da república. Nessa conjuntura, aquele outro César, o filho adotivo de Caio, e depois, como eu disse, conhecido pelo nome de Augusto, havia feito sua estreia como jovem de notável talento.
Esse jovem César foi favorecido por Cícero, a fim de que sua influência neutralizasse a de Antônio; pois ele esperava que César derrubasse e arruinasse o poder de Antônio e estabelecesse um Estado livre, tão cego e ignorante do futuro era ele: pois aquele mesmo jovem, cuja ascensão e influência ele alimentava, permitiu que Cícero fosse morto como selo de uma aliança com Antônio, e submeteu ao seu próprio domínio a mesma liberdade da república em defesa da qual tantos discursos havia proferido.