A Cidade de Deus - Livro III 31

Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses

Que é despautério atribuir as atuais desgraças a Cristo e à proibição do culto politeísta, visto que, mesmo quando os deuses eram adorados, tais calamidades sobrevinham ao povo.

Que aqueles que não têm gratidão a Cristo por seus grandes benefícios culpem os seus próprios deuses por estes pesados desastres. Pois certamente, quando estes ocorreram, os altares dos deuses ardiam em chamas, e elevava-se a fragrância misturada do "incenso sabeu e das grinaldas frescas"; os sacerdotes estavam revestidos de honra, os santuários eram mantidos em esplendor; sacrifícios, jogos e êxtases sagrados eram comuns nos templos; enquanto o sangue dos cidadãos era derramado tão livremente, não em lugares remotos, mas entre os próprios altares dos deuses. Cícero não quis buscar refúgio num templo, porque Múcio o buscara ali em vão.
Mas os que mais imperdoavelmente caluniam esta era cristã são precisamente os homens que ou eles próprios fugiram em busca de asilo para os lugares especialmente consagrados a Cristo, ou para foram levados pelos bárbaros, a fim de que estivessem em segurança.
Em suma, para não recapitular os muitos exemplos que citei, e para não acrescentar ao seu número outros que seria fastidioso enumerar, de uma coisa estou persuadido, e todo juízo imparcial prontamente o reconhecerá: que, se o gênero humano tivesse recebido o cristianismo antes das guerras púnicas, e se as mesmas calamidades devastadoras que essas guerras trouxeram sobre a Europa e a África tivessem seguido a introdução do cristianismo, não haveria um só, dentre os que agora nos acusam, que não as houvesse atribuído à nossa religião.
Quão insuportáveis teriam sido as suas acusações, ao menos no que toca aos romanos, se a religião cristã houvesse sido recebida e difundida antes da invasão dos gauleses, ou antes das ruinosas inundações e incêndios que assolaram Roma, ou antes daqueles, os mais calamitosos de todos os acontecimentos, as guerras civis! E aqueles outros desastres, que eram de natureza tão estranha que foram tidos por prodígios, se houvessem acontecido depois da era cristã, a quem, senão aos cristãos, os teriam imputado como crimes?
Não falo daquelas coisas que foram antes surpreendentes do que danosas: bois que falavam, crianças por nascer que articulavam algumas palavras no ventre de suas mães, serpentes que voavam, galinhas e mulheres que se transformavam no outro sexo; e outros prodígios semelhantes que, verdadeiros ou falsos, estão registrados não em suas obras de imaginação, mas nas históricas, e que não ferem, mas apenas espantam os homens. Mas quando choveu terra, quando choveu cal, quando choveram pedras (não pedras de granizo, mas pedras de verdade) isto certamente era capaz de causar sério dano.
Lemos em seus livros que os fogos do Etna, derramando-se do alto do monte até a praia vizinha, fizeram o mar ferver, de modo que as rochas se consumiram e o breu dos navios começou a escorrer: um fenômeno incrivelmente surpreendente, mas, ao mesmo tempo, não menos danoso. Pelo mesmo calor violento, relatam que, em outra ocasião, a Sicília se encheu de cinzas, de tal modo que as casas da cidade de Catina foram destruídas e soterradas sob elas: calamidade que moveu os romanos à piedade, levando-os a remitir-lhe o tributo daquele ano.
Pode-se ler também que a África, que por aquele tempo se tornara província de Roma, foi visitada por uma prodigiosa multidão de gafanhotos, os quais, depois de consumirem os frutos e a folhagem das árvores, foram lançados ao mar numa única nuvem vasta e desmedida; de sorte que, quando se afogaram e foram arremessados à praia, o ar ficou poluído e produziu-se peste tão grave que, no reino de Massinissa, dizem ter perecido oitocentas mil pessoas, além de número muito maior nos distritos vizinhos. Em Útica, asseguram-nos que, dos trinta mil soldados que então a guarneciam, sobreviveram apenas dez.
Contudo, qual destes desastres, supondo que acontecessem agora, não seria atribuído à religião cristã por aqueles que assim, irrefletidamente, nos acusam, e a quem somos compelidos a responder? E, no entanto, aos seus próprios deuses não atribuem nenhuma destas coisas, embora os adorem para escapar de calamidades menores do mesmo gênero, e não consideram que aqueles que outrora os adoravam não foram preservados destes graves desastres.