A Cidade de Deus - Livro III 3

Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses

Que os deuses não podiam ofender-se com o adultério de Páris, sendo esse crime tão comum entre eles próprios

Não há, portanto, fundamento algum para representar os deuses (por meio dos quais, segundo dizem, aquele império se mantinha, embora se prove terem sido vencidos pelos gregos) como enfurecidos com o perjúrio troiano. Tampouco, como outros novamente alegam em sua defesa, foi a indignação com o adultério de Páris que os levou a retirar de Troia a sua proteção. Pois o hábito deles é serem instigadores e mestres do vício, não os seus vingadores.
"A cidade de Roma", diz Salústio, "foi primeiramente construída e habitada, conforme ouvi dizer, pelos troianos, os quais, fugindo de sua pátria sob a condução de Eneias, vagavam sem se fixar em parte alguma." Se, então, os deuses eram de opinião que o adultério de Páris devesse ser punido, eram sobretudo os romanos, ou ao menos também os romanos, que deveriam ter sofrido; pois o adultério foi cometido pela mãe de Eneias. Mas como podiam eles odiar em Páris um crime ao qual não faziam objeção alguma em sua própria irmã Vênus, a qual (para não mencionar nenhum outro caso) cometeu adultério com Anquises, tornando-se assim a mãe de Eneias?
Será porque, num caso, Menelau foi lesado, ao passo que, no outro, Vulcano fez vista grossa ao crime? Pois os deuses, imagino, têm tão pouco ciúme de suas esposas que não fazem escrúpulo algum de compartilhá-las com os homens. Mas talvez eu seja suspeito de transformar os mitos em ridículo, e de não tratar assunto tão grave com a devida seriedade. Pois bem, digamos então que Eneias não é filho de Vênus. Estou disposto a admiti-lo; mas será Rômulo, mais do que ele, filho de Marte? Pois por que não tanto um quanto o outro? Ou será lícito aos deuses ter comércio com mulheres, e ilícito aos homens ter comércio com deusas?
Dura, ou antes inacreditável condição, que aquilo que era permitido a Marte pela lei de Vênus não fosse permitido à própria Vênus por sua própria lei. Contudo, ambos os casos têm a autoridade de Roma; pois César, em tempos modernos, não acreditava menos descender de Vênus do que o antigo Rômulo se acreditava filho de Marte.