A Cidade de Deus - Livro III 2
Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses
Se os deuses, que gregos e romanos cultuavam em comum, agiram com justiça ao permitir a destruição de Ílion
Em primeiro lugar, pois, por que Troia, ou Ílion, o berço do povo romano (pois não devo omitir nem dissimular aquilo que toquei no primeiro livro), foi conquistada, tomada e destruída pelos gregos, embora estimasse e cultuasse os mesmos deuses que eles? Príamo, respondem alguns, pagou a pena do perjúrio de seu pai Laomedonte. É verdade, então, que Laomedonte contratou Apolo e Netuno como seus operários. Pois a história conta que ele lhes prometeu salários, e depois quebrou o seu acordo. Admiro-me de que aquele famoso adivinho Apolo se afadigasse em obra tão imensa, e jamais suspeitasse que Laomedonte iria defraudá-lo do seu pagamento.
E também Netuno, seu tio, irmão de Júpiter e rei do mar, não era próprio que ignorasse o que estava por acontecer. Pois ele é apresentado por Homero (que viveu e escreveu antes da fundação de Roma) predizendo algo grandioso a respeito da posteridade de Eneias, que de fato fundou Roma. E, como diz Homero, Netuno também resgatou Eneias numa nuvem da ira de Aquiles, ainda que (segundo Virgílio)
"Todo o seu desejo era destruir a sua própria criação, a perjura Troia."
Deuses, pois, tão grandes quanto Apolo e Netuno, ignorando a fraude que iria defraudá-los de seus salários, construíram as muralhas de Troia em troca de nada além de agradecimentos, e isso de gente ingrata. Pode haver alguma dúvida se não é crime pior acreditar que tais pessoas sejam deuses do que enganar tais deuses. O próprio Homero não deu crédito pleno a essa história, pois, enquanto representa Netuno, de fato, como hostil aos troianos, apresenta Apolo como seu defensor, embora a história implique que ambos foram ofendidos por aquela fraude.
Se, portanto, acreditam em suas fábulas, que se envergonhem de cultuar tais deuses; se descreem das fábulas, que não se fale mais do "perjúrio troiano"; ou que expliquem como os deuses odiaram o perjúrio troiano, mas amaram o romano. Pois como é que a conspiração de Catilina, mesmo numa cidade tão grande e corrupta, encontrou suprimento tão abundante de homens cujas mãos e línguas lhes garantiam o sustento por meio do perjúrio e das discórdias civis? Que outra coisa senão o perjúrio corrompeu os julgamentos pronunciados por tantos dos senadores? Que outra coisa corrompeu os votos do povo e as decisões de todas as causas julgadas perante eles?
Pois parece que a antiga prática de prestar juramentos foi preservada mesmo em meio à maior corrupção, não com o fim de refrear a iniquidade pelo temor religioso, mas para completar o rol dos crimes acrescentando-lhe o do perjúrio.