A Cidade de Deus - Livro III 25

Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses

Do templo da Concórdia, erigido por decreto do senado no local dessas sedições e massacres

Belo decreto do senado foi, em verdade, aquele pelo qual se edificou o templo da Concórdia no exato lugar onde acontecera aquela desastrosa revolta, e onde tantos cidadãos de toda condição haviam tombado. Suponho que foi para que o monumento do castigo dos Gracos ferisse os olhos e tocasse a memória dos oradores. Mas que outra coisa era isso senão escarnecer dos deuses, ao erguer um templo àquela deusa que, se estivesse na cidade, não teria permitido que esta se despedaçasse em tais dissensões? Ou seria que a Concórdia era culpada por aquele derramamento de sangue, porque havia abandonado as mentes dos cidadãos, e por isso foi encarcerada naquele templo?
Pois, se tivessem algum apreço pela coerência, por que não ergueram antes naquele local um templo da Discórdia? Ou alguma razão para que a Concórdia seja uma deusa, enquanto a Discórdia não o seja? Vale aqui a distinção de Labeão, que faria de uma uma divindade boa, e da outra uma divindade má? Distinção que parece lhe ter sido sugerida pelo simples fato de observar em Roma tanto um templo à Febre quanto um à Saúde. Mas, pela mesma razão, a Discórdia, assim como a Concórdia, deveria ser divinizada.
Arriscado empreendimento fizeram os romanos ao provocar deusa tão perversa, e ao esquecer que a destruição de Troia fora ocasionada por ter ela se ofendido. Pois, indignada por não ter sido convidada com os outros deuses (para as núpcias de Peleu e Tétis), ela criou a discórdia entre as três deusas ao lançar a maçã de ouro, o que provocou a contenda no céu, a vitória de Vênus, o rapto de Helena e a destruição de Troia.
Por isso, se ela porventura se ofendeu por não a terem os romanos julgado digna de um templo entre os outros deuses em sua cidade, e portanto perturbou o Estado com tais tumultos, a quanto mais feroz paixão não se enfureceria ao ver erguido o templo de sua adversária no local daquele massacre, ou, por outras palavras, no local de sua própria obra!
Esses homens sábios e doutos irritam-se por rirmos dessas tolices; e contudo, sendo adoradores tanto de divindades boas quanto de más, não podem escapar deste dilema acerca da Concórdia e da Discórdia: ou negligenciaram o culto dessas deusas e preferiram a Febre e a Guerra, às quais foram erguidos santuários de grande antiguidade, ou as cultuaram, e, apesar de tudo, a Concórdia os abandonou, e a Discórdia os arremessou tempestuosamente às guerras civis.