A Cidade de Deus - Livro III 23

Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses

Das calamidades internas que afligiram a república romana, e que se seguiram a uma loucura prodigiosa que se apoderou de todos os animais domésticos

Mas mencionemos agora, do modo mais sucinto possível, aquelas calamidades que foram ainda mais aflitivas, por estarem mais próximas de casa: refiro-me àquelas discórdias erroneamente chamadas civis, pois destroem os interesses civis. As sedições haviam-se tornado guerras urbanas, nas quais o sangue corria livremente, e nas quais os partidos se enfureciam uns contra os outros, não com contendas e disputas verbais, mas com força física e armas. Que mar de sangue romano foi derramado, que desolações e devastações se produziram na Itália pelas guerras sociais, pelas guerras servis e pelas guerras civis!
Antes que os latinos iniciassem a guerra social contra Roma, todos os animais empregados a serviço do homem (cães, cavalos, asnos, bois e todos os demais que estão sujeitos ao homem) de súbito se tornaram selvagens, e, esquecidos de sua mansidão doméstica, abandonaram seus estábulos e vagaram à solta, não podendo ser aproximados de perto, nem por estranhos nem por seus próprios donos, sem perigo. Se isto foi um portento, quão grave calamidade não deve ter sido por ele pressagiada uma peste que, fosse portento ou não, era em si mesma uma grave calamidade! Tivesse acontecido em nossos dias, e os pagãos teriam ficado mais raivosos contra nós do que seus animais o estavam contra eles.