A Cidade de Deus - Livro III 22

Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses

Do edito de Mitrídates, ordenando que todos os cidadãos romanos encontrados na Ásia fossem mortos

Essas coisas, repito, passo em silêncio; mas de modo algum posso calar-me a respeito da ordem dada por Mitrídates, rei da Ásia, de que num dia todos os cidadãos romanos residentes em qualquer parte da Ásia (onde grande número deles se ocupava de seus negócios particulares) fossem mortos: e essa ordem foi executada. Quão miserável espetáculo se apresentou então, quando cada homem foi súbita e traiçoeiramente assassinado onde quer que se encontrasse, no campo ou na estrada, na cidade, em sua própria casa ou na rua, no mercado ou no templo, no leito ou à mesa!
Pensai nos gemidos dos moribundos, nas lágrimas dos espectadores e até dos próprios executores. Pois quão cruel necessidade era aquela que compelia as multidões dessas vítimas não apenas a presenciar essas abomináveis carnificinas em suas próprias casas, mas até a perpetrá-las: a mudar de súbito o semblante da branda bondade da amizade e, em meio à paz, dar início ao ofício da guerra; e, direi eu, a infligir e receber feridas, sendo o morto trespassado no corpo, e o matador no espírito! Teriam, então, todas essas pessoas assassinadas desprezado os augúrios?
Não teriam eles deuses públicos nem domésticos a consultar quando deixaram seus lares e partiram para aquela viagem fatal? Se não os tinham, nossos adversários não têm razão para queixar-se destes tempos cristãos nesse ponto, visto que muito tempo os romanos desprezavam os augúrios como vãos. Se, por outro lado, consultaram de fato os presságios, que nos digam que bem disso obtiveram, mesmo quando tais coisas não eram proibidas, mas autorizadas, pela lei humana, se não pela divina.