A Cidade de Deus - Livro III 20
Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses
A destruição dos saguntinos, que nenhuma ajuda receberam dos deuses romanos, embora perecessem por causa de sua fidelidade a Roma
Mas, entre todos os desastres da segunda guerra púnica, nenhum houve mais lamentável, ou capaz de suscitar queixa mais profunda, do que o destino dos saguntinos. Esta cidade da Espanha, eminentemente amiga de Roma, foi destruída por sua fidelidade ao povo romano. Pois, quando Aníbal rompera o tratado com os romanos, buscava ocasião para provocá-los à guerra e, por conseguinte, lançou um feroz assalto contra Sagunto.
Quando isto foi relatado em Roma, embaixadores foram enviados a Aníbal, instando-o a levantar o cerco; e, quando este protesto foi desprezado, dirigiram-se a Cartago, apresentaram queixa contra o rompimento do tratado e regressaram a Roma sem alcançar seu intento. Entretanto, o cerco prosseguia; e, no oitavo ou nono mês, esta cidade opulenta mas infeliz, tão querida ao seu próprio Estado quanto a Roma, foi tomada e submetida a um tratamento que não se pode ler, e muito menos narrar, sem horror. E, contudo, porque concerne diretamente ao assunto em pauta, hei de tocá-lo brevemente.
Primeiro, então, a fome consumiu os saguntinos, de modo que até cadáveres humanos foram devorados por alguns: assim ao menos se registra. Posteriormente, quando já completamente exauridos, para que ao menos escapassem à ignomínia de cair nas mãos de Aníbal, ergueram publicamente uma enorme pira funerária e lançaram-se às suas chamas, ao mesmo tempo que matavam a seus filhos e a si mesmos com a espada. Poderiam esses deuses, esses devassos e glutões, cuja boca se enche d'água por sacrifícios gordos, e cujos lábios proferem adivinhações mentirosas, poderiam eles fazer alguma coisa num caso como este?
Não poderiam eles intervir pela preservação de uma cidade estreitamente aliada ao povo romano, ou impedir que ela perecesse por sua fidelidade àquela aliança da qual eles próprios haviam sido os mediadores? Sagunto, guardando fielmente o tratado em que havia entrado diante desses deuses, e ao qual firmemente se obrigara por juramento, foi sitiada, tomada e destruída por um perjuro. Se depois, quando Aníbal estava junto às muralhas de Roma, foram os deuses que o aterrorizaram com raios e tempestade, afugentando-o para longe, por que, pergunto, não intervieram assim antes?
Pois ouso dizer que esta demonstração com a tempestade teria sido feita mais honrosamente em defesa dos aliados de Roma, que se achavam em perigo por causa de sua relutância em quebrar a fé com os romanos, e não tinham recursos próprios, do que em defesa dos próprios romanos, que combatiam em causa própria e dispunham de abundantes recursos para opor-se a Aníbal.
Se, pois, eles tivessem sido os guardiões da prosperidade e da glória de Roma, teriam preservado essa glória da mácula deste desastre de Sagunto; e quão tolo é crer que Roma foi preservada da destruição às mãos de Aníbal pelo cuidado tutelar daqueles deuses que foram incapazes de resgatar a cidade de Sagunto de perecer por sua fidelidade à aliança com Roma.
Se a população de Sagunto tivesse sido cristã, e houvesse sofrido como sofreu pela fé cristã (embora, é claro, os cristãos não tivessem usado fogo e espada contra suas próprias pessoas), teria sofrido com aquela esperança que brota da fé em Cristo: a esperança não de uma breve recompensa temporal, mas de uma bem-aventurança incessante e eterna. Que dirão, então, os advogados e apologistas desses deuses em sua defesa, quando acusados pelo sangue desses saguntinos; pois eles são confessadamente adorados e invocados com este mesmo propósito de assegurar prosperidade nesta vida fugaz e transitória?
Pode-se dizer algo além do que se alegou no caso da morte de Régulo? Pois, embora haja diferença entre os dois casos, sendo um um indivíduo e o outro toda uma comunidade, contudo a causa da destruição foi, em ambos os casos, a guarda da fé empenhada. Pois foi isto que tornou Régulo disposto a voltar a seus inimigos, e isto que tornou os saguntinos indispostos a desertar para seus inimigos. Acaso, então, a guarda da fé provoca os deuses à ira? Ou será possível que não apenas indivíduos, mas até comunidades inteiras, pereçam enquanto os deuses lhes são propícios? Escolham nossos adversários qual das alternativas preferirem.
Se, por um lado, esses deuses se enfurecem com a guarda da fé, então recrutem perjuros como seus adoradores. Se, por outro lado, homens e Estados podem sofrer grandes e terríveis calamidades e, por fim, perecer enquanto favorecidos pelos deuses, então seu culto não produz a felicidade como fruto.
Deponham, portanto, sua ira aqueles que supõem haver caído em desgraça porque seu culto religioso foi abolido; pois bem possível seria que, mesmo que os deuses não somente permanecessem com eles, mas os contemplassem com favor, ainda assim pudessem ser deixados a prantear uma sorte infeliz, ou pudessem, até como Régulo e os saguntinos, ser horrivelmente atormentados e, por fim, perecer miseravelmente.