A Cidade de Deus - Livro III 19
Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses
Da calamidade da segunda guerra púnica, que consumiu as forças de ambos os partidos
Quanto à segunda guerra púnica, seria fastidioso recontar os desastres que ela trouxe sobre as duas nações nela empenhadas, em guerra tão prolongada e tão instável que (pelo reconhecimento até mesmo daqueles escritores que se propuseram não tanto narrar as guerras quanto enaltecer o domínio de Roma) o povo que permaneceu vitorioso se assemelhava menos a vencedores do que a vencidos.
Pois, quando Aníbal se derramou da Espanha sobre os Pirineus, e devastou a Gália, e irrompeu pelos Alpes, e em todo o seu percurso reuniu forças saqueando e subjugando à medida que avançava, e inundou a Itália como uma torrente, quão sangrentas foram as guerras, e quão contínuos os combates travados! Quantas vezes foram os romanos vencidos! Quantas cidades passaram para o inimigo, e quantas foram tomadas e subjugadas! Que terríveis batalhas houve, e quantas vezes a derrota dos romanos lançou esplendor sobre as armas de Aníbal!
E que direi da derrota assombrosamente esmagadora em Canas, onde até mesmo Aníbal, cruel como era, ficou contudo saciado do sangue de seus mais encarniçados inimigos, e deu ordem para que fossem poupados? Desse campo de batalha enviou a Cartago três alqueires de anéis de ouro, significando que tamanha quantidade da nobreza de Roma havia tombado naquele dia, que era mais fácil dar uma ideia disso por medida do que por números; e que a pavorosa carnificina da soldadesca comum, cujos corpos jaziam indistintos por não trazerem o anel, e que eram numerosos na proporção de sua baixa condição, antes devia ser conjecturada do que relatada com exatidão.
De fato, tal foi a escassez de soldados depois disso, que os romanos recrutaram à força os seus criminosos sob a promessa de impunidade, e os seus escravos pelo suborno da liberdade, e dessas classes infames não tanto reforçaram quanto criaram um exército. Mas esses escravos, ou, para dar-lhes todos os seus títulos, esses libertos que foram alistados para combater pela república de Roma, careciam de armas. E assim tomaram armas dos templos, como se os romanos dissessem aos seus deuses: Depositai essas armas que por tanto tempo empunhastes em vão, se por acaso os nossos escravos puderem usar com proveito aquilo que vós, nossos deuses, fostes impotentes para usar.
Naquele tempo, também, o erário público estava demasiado baixo para pagar os soldados, e recursos particulares foram empregados para fins públicos; e tão generosamente contribuíram os indivíduos de seus bens, que, salvo o anel de ouro e a bula que cada um trazia, o débil sinal de sua condição, nenhum senador, e muito menos qualquer das outras ordens e tribos, reservou ouro algum para o próprio uso. Mas se em nossos dias eles fossem reduzidos a essa pobreza, quem seria capaz de suportar as suas censuras, dificilmente suportáveis como já o são agora, quando se gasta mais dinheiro com atores, por causa de um prazer supérfluo, do que então se desembolsava para as legiões?