A Cidade de Deus - Livro III 1
Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses
Dos males que somente os ímpios temem, e que o mundo continuamente sofreu, mesmo quando os deuses eram adorados
Quanto aos males morais e espirituais, que acima de todos os outros devem ser deplorados, penso que já se disse o bastante para mostrar que os falsos deuses nenhuma providência tomaram para impedir que o povo que os adorava fosse esmagado por tais calamidades, mas antes agravaram a ruína. Vejo que devo agora falar daqueles males que são os únicos temidos pelos pagãos: a fome, a peste, a guerra, a pilhagem, o cativeiro, o massacre e calamidades semelhantes, já enumeradas no primeiro livro. Pois os homens maus consideram males apenas aquelas coisas que não tornam os homens maus; nem se envergonham de louvar as coisas boas, e contudo de permanecer maus em meio às coisas boas que louvam.
Mais os aflige possuir uma casa ruim do que uma vida ruim, como se o maior bem do homem fosse ter tudo bom, exceto a si mesmo. Mas nem mesmo os males que os pagãos sozinhos temiam foram afastados por seus deuses, ainda quando estes eram adorados sem nenhuma restrição. Pois em vários tempos e lugares, antes da vinda do nosso Redentor, o gênero humano foi esmagado por inumeráveis e por vezes incríveis calamidades; e naquele tempo que deuses, senão aqueles, adorava o mundo, se excetuardes a única nação dos hebreus e, além dela, os indivíduos que o mais secreto e mais justo juízo de Deus julgou dignos da graça divina?
Mas, para não ser prolixo, calarei a respeito das pesadas calamidades que qualquer outra nação tenha sofrido, e falarei somente do que aconteceu a Roma e ao império romano, com o que designo Roma propriamente dita e aquelas terras que já, antes da vinda de Cristo, por aliança ou conquista se haviam tornado, por assim dizer, membros do corpo do Estado.