A Cidade de Deus - Livro III 16
Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses
Dos primeiros cônsules romanos, dos quais um expulsou o outro do país e pouco depois pereceu em Roma pela mão de um inimigo ferido, encerrando assim uma carreira de assassínios contra a natureza
A esta época acrescentemos também aquela da qual Salústio diz que foi governada com justiça e moderação, enquanto pairava o temor de Tarquínio e de uma guerra com a Etrúria. Pois, enquanto os etruscos auxiliaram os esforços de Tarquínio para reaver o trono, Roma foi convulsionada por uma guerra angustiante. E por isso ele diz que o Estado foi governado com justiça e moderação por causa da pressão do temor, não por influência da equidade. E neste período tão breve, quão calamitoso foi aquele ano em que se criaram pela primeira vez cônsules, quando o poder real foi abolido! Eles não cumpriram o termo de seu cargo.
Pois Júnio Bruto privou seu colega Lúcio Tarquínio Colatino do cargo e o baniu da cidade; e pouco depois ele próprio tombou em batalha, matando e sendo morto ao mesmo tempo, tendo antes dado à morte os próprios filhos e os cunhados, por haver descoberto que conspiravam para restaurar Tarquínio. É este feito que Virgílio estremece em registrar, ainda que pareça louvá-lo; pois quando diz:
"E convocará a própria prole rebelde, em nome da liberdade ameaçada, a derramar seu sangue",
imediatamente exclama:
"Pai infeliz! Seja como for que o feito venha a ser julgado pelos dias vindouros";
isto é, julgue a posteridade o feito como lhe aprouver, louvem e exaltem o pai que matou os filhos: ele é infeliz. E então acrescenta, como que para consolar homem tão infeliz:
"O amor da pátria a tudo vencerá, e a inextinguível sede de glória".
No trágico fim de Bruto, que matou os próprios filhos e que, embora tenha matado seu inimigo, o filho de Tarquínio, não pôde contudo sobreviver-lhe, mas foi sobrevivido por Tarquínio, o ancião, não parece ficar vindicada a inocência de seu colega Colatino, o qual, embora bom cidadão, sofreu o mesmo castigo que o próprio Tarquínio, quando aquele tirano foi banido? Pois do próprio Bruto se diz que era parente de Tarquínio. Mas Colatino teve a desventura de carregar não apenas o sangue, mas também o nome de Tarquínio. Mudar-lhe o nome, então, e não a pátria, teria sido sua justa pena: abreviar-lhe o nome com esta palavra e chamar-se simplesmente L. Colatino.
Mas ele não foi compelido a perder aquilo que podia perder sem prejuízo, e sim foi despojado da honra do primeiro consulado e banido da terra que amava. Será esta, então, a glória de Bruto: esta injustiça, ao mesmo tempo detestável e inútil à república? Foi a isto que o impeliram "o amor da pátria e a inextinguível sede de glória"?
Quando Tarquínio, o tirano, foi expulso, L. Tarquínio Colatino, marido de Lucrécia, foi feito cônsul juntamente com Bruto. Quão justamente agiu o povo, olhando mais para o caráter que para o nome de um cidadão! Quão injustamente agiu Bruto, privando da honra e da pátria seu colega naquele novo cargo, a quem poderia ter privado do nome, se tanto este lhe era odioso! Tais foram os males, tais os desastres que sobrevieram quando o governo era "administrado com justiça e moderação". Lucrécio também, que sucedeu a Bruto, foi arrebatado por doença antes do fim daquele mesmo ano. Assim P. Valério, que sucedeu a Colatino, e M. Horácio, que preencheu a vaga deixada pela morte de Lucrécio, completaram aquele ano desastroso e fúnebre, que teve cinco cônsules. Tal foi o ano em que a república romana inaugurou a nova honra e o novo cargo do consulado.