A Cidade de Deus - Livro III 17

Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses

Dos desastres que afligiram a república romana após a instauração do consulado, e da omissão dos deuses de Roma

Depois disso, quando seus temores foram pouco a pouco se atenuando (não porque as guerras tivessem cessado, mas porque não eram tão furiosas), aproximou-se do fim aquele período em que as coisas eram "ordenadas com justiça e moderação", e seguiu-se aquele estado de coisas que Salústio assim esboça de modo conciso: "Então começaram os patrícios a oprimir o povo como a escravos, a condená-lo à morte ou ao açoite, como haviam feito os reis, a expulsá-lo de suas terras e a tiranizar aqueles que não tinham bem algum a perder.
O povo, esmagado por essas medidas opressivas, e sobretudo pela usura, e obrigado a contribuir tanto com dinheiro quanto com serviço pessoal para as guerras incessantes, finalmente tomou as armas e retirou-se para o Monte Aventino e o Monte Sacro, e assim assegurou para si tribunos e leis protetoras. Mas foi apenas a segunda guerra púnica que pôs fim, de ambos os lados, à discórdia e à contenda." Mas por que haveria eu de gastar tempo escrevendo tais coisas, ou de fazer outros gastá-lo lendo-as?
Baste o conciso resumo de Salústio para dar a entender a miséria da república ao longo de todo aquele longo período até a segunda guerra púnica: como ela foi atormentada por fora por guerras incessantes, e dilacerada por baldas e dissensões civis. De modo que aquelas vitórias de que se gloriam não eram as alegrias substanciais dos felizes, mas os consolos vazios de homens infelizes, e incitamentos sedutores para que homens turbulentos urdissem desastres sobre desastres. E que não se irem os bons e prudentes romanos por dizermos isto; e, na verdade, não precisamos nem deprecar nem denunciar a sua ira, pois sabemos que não a nutrirão.
Pois não falamos com mais severidade do que os seus próprios autores, e muito menos elaborada e marcantemente; e, contudo, eles leem diligentemente esses autores, e obrigam seus filhos a aprendê-los. Mas aqueles que se iram, que fariam a mim, se eu dissesse o que Salústio diz?
"Tumultos frequentes, sedições e, por fim, guerras civis tornaram-se comuns, enquanto uns poucos homens influentes, dos quais as massas dependiam, almejavam o poder supremo sob o decoroso pretexto de buscar o bem do senado e do povo; os cidadãos eram julgados bons ou maus sem referência à sua lealdade à república (pois todos eram igualmente corruptos); mas os ricos e perigosamente poderosos eram tidos por bons cidadãos, porque mantinham o estado de coisas existente." Ora, se aqueles historiadores julgaram que uma honrosa liberdade de palavra exigia que não se calassem acerca das mazelas de seu próprio Estado, ao qual em muitos lugares aplaudiram ruidosamente, na sua ignorância daquela outra e verdadeira cidade em que a cidadania é uma dignidade eterna, que nos convém fazer, a nós cuja liberdade deve ser tanto maior quanto melhor e mais firme é a nossa esperança em Deus, quando eles imputam ao nosso Cristo as calamidades desta era, a fim de que os homens da espécie menos instruída e mais fraca sejam alienados daquela cidade na qual unicamente se pode fruir a vida eterna e bem-aventurada?
Tampouco proferimos contra os seus deuses algo mais horrível do que os seus próprios autores fazem, os quais eles leem e divulgam. Pois, de fato, tudo o que dissemos derivamos deles, e muito mais a dizer, de espécie pior, que não somos capazes de dizer.
Onde estavam, então, aqueles deuses que se supõe serem justamente adorados pela tênue e ilusória prosperidade deste mundo, quando os romanos, que foram seduzidos ao seu culto por mentirosos ardis, eram atormentados por tais calamidades? Onde estavam eles quando Valério, o cônsul, foi morto enquanto defendia o Capitólio, que havia sido incendiado por exilados e escravos? Ele próprio era mais capaz de defender o templo de Júpiter do que aquela turba de divindades, com o seu altíssimo e poderosíssimo rei, cujo templo ele acudiu, era capaz de defendê-lo a ele.
Onde estavam eles quando a cidade, esgotada por sedições incessantes, esperava em uma espécie de calma o retorno dos embaixadores que haviam sido enviados a Atenas para tomar leis emprestadas, e foi assolada por terrível fome e peste? Onde estavam eles quando o povo, novamente afligido pela fome, criou pela primeira vez um prefeito do mercado; e quando Espúrio Mélio, que, à medida que a fome aumentava, distribuía trigo às massas famintas, foi acusado de aspirar à realeza e, por instância desse mesmo prefeito, e sob a autoridade do idoso ditador Lúcio
Quíncio, foi morto por Quinto Servílio, mestre da cavalaria, evento que ocasionou um motim grave e perigoso? Onde estavam eles quando aquela peste gravíssima visitou Roma, por causa da qual o povo, após longas, enfadonhas e inúteis súplicas aos deuses impotentes, concebeu a ideia de celebrar os Lectisternia, o que nunca antes fora feito; isto é, dispuseram leitos em honra dos deuses, o que explica o nome desse rito sagrado, ou antes sacrílego?
Onde estavam eles quando, durante dez anos sucessivos de reveses, o exército romano sofreu frequentes e grandes perdas entre os veios, e teria sido destruído não fosse o socorro de Fúrio Camilo, que depois foi banido por uma pátria ingrata? Onde estavam eles quando os gauleses tomaram, saquearam, incendiaram e assolaram Roma? Onde estavam eles quando aquela memorável peste causou tamanha destruição, na qual também pereceu Fúrio Camilo, que primeiro defendeu a república ingrata dos veios e depois a salvou dos gauleses?
Mais ainda: durante essa peste introduziram uma nova praga, a dos espetáculos cênicos, que espalhou o seu contágio mais funesto não aos corpos, mas aos costumes dos romanos. Onde estavam eles quando outra apavorante peste visitou a cidade, refiro-me aos envenenamentos imputados a um número incrível de nobres matronas romanas, cujos caracteres estavam infectados de uma doença mais funesta do que qualquer peste?
Ou quando ambos os cônsules à frente do exército foram cercados pelos samnitas nas Forcas Caudinas, e forçados a firmar um tratado vergonhoso, sendo seiscentos cavaleiros romanos retidos como reféns; enquanto as tropas, tendo deposto as armas e sendo despojadas de tudo, foram obrigadas a passar sob o jugo, cada uma com uma veste? Ou quando, em meio a uma grave peste, um raio atingiu o acampamento romano e matou muitos?
Ou quando Roma foi levada, pela violência de outra peste intolerável, a mandar buscar Esculápio em Epidauro como deus da medicina; visto que os frequentes adultérios de Júpiter na juventude talvez não tivessem deixado a esse rei de todos, que por tanto tempo reinou no Capitólio, qualquer ócio para o estudo da medicina? Ou quando, certa vez, os lucanos, os brúcios, os samnitas, os toscanos e os gauleses senônios conspiraram contra Roma, e primeiro mataram seus embaixadores, depois derrotaram um exército sob o comando do pretor, passando a fio de espada treze mil homens, além do comandante e de sete tribunos?
Ou quando o povo, após as graves e prolongadas perturbações em Roma, por fim saqueou a cidade e retirou-se para o Janículo; perigo tão grave que Hortênsio foi criado ditador, ofício a que recorriam em emergências extremas; e ele, tendo trazido o povo de volta, morreu enquanto ainda detinha o cargo, evento sem precedente no caso de qualquer ditador, e que foi uma vergonha para aqueles deuses que agora tinham Esculápio entre eles?
Naquele tempo, de fato, tantas guerras eram travadas por toda parte que, por escassez de soldados, alistaram para o serviço militar os proletarii, que receberam esse nome porque, sendo pobres demais para se equiparem para o serviço militar, tinham ócio para gerar prole. Pirro, rei da Grécia, e naquele tempo de renome generalizado, foi convidado pelos tarentinos a alistar-se contra Roma. Foi a ele que Apolo, consultado acerca do desfecho de seu empreendimento, proferiu, com alguma chacota, um oráculo tão ambíguo que, qualquer das alternativas que sucedesse, o próprio deus seria tido por divino.
Pois ele assim formulou o oráculo que, quer Pirro fosse vencido pelos romanos, quer os romanos por Pirro, o deus adivinhador aguardaria o desfecho com segurança. E então, que apavorantes massacres de ambos os exércitos se seguiram! Contudo, Pirro permaneceu vencedor, e teria agora sido capaz de proclamar Apolo um verdadeiro adivinho, conforme ele entendia o oráculo, não tivessem os romanos sido os vencedores no embate seguinte. E enquanto tão desastrosas guerras eram travadas, uma terrível doença irrompeu entre as mulheres. Pois as mulheres grávidas morriam antes do parto.
E Esculápio, imagino eu, desculpou-se nesse assunto sob o pretexto de que professava ser médico-mor, não parteira. O gado também pereceu de modo semelhante; de sorte que se acreditava que toda a raça dos animais estava destinada a extinguir-se. Que direi, então, daquele memorável inverno em que o tempo foi tão incrivelmente rigoroso que no Foro jazeu, por quarenta dias seguidos, uma neve apavorantemente profunda, e o Tibre ficou congelado? Houvessem tais coisas acontecido em nossos dias, que acusações ouviríamos de nossos inimigos! E daquela outra grande peste, que grassou por tanto tempo e levou tantos; que direi dela?
A despeito de todas as drogas de Esculápio, ela piorou em seu segundo ano, até que por fim se recorreu aos livros sibilinos, espécie de oráculo que, como diz Cícero em seu De Divinatione, deve o seu significado aos intérpretes, que fazem conjecturas duvidosas como podem ou como querem. Neste caso, disse-se que a causa da peste era o fato de que tantos templos haviam sido usados como residências particulares. E assim Esculápio escapou, por ora, da acusação tanto de ignominiosa negligência quanto de falta de perícia.
Mas por que se permitiu a tantos ocupar templos sagrados sem interferência, senão porque por muito tempo se havia suplicado em vão a tal turba de deuses, e assim, pouco a pouco, os lugares sagrados foram abandonados pelos adoradores e, estando deste modo vazios, podiam, sem ofensa, ser postos ao menos a algum uso humano? E os templos, que naquele tempo foram laboriosamente reconhecidos e restaurados para que a peste pudesse ser detida, caíram depois em desuso e foram novamente destinados aos mesmos usos humanos.
Não tivessem eles assim caído na obscuridade, não poderia ter sido apontado como prova da grande erudição de Varrão o fato de que, em sua obra sobre os lugares sagrados, ele cita tantos que eram desconhecidos. Entretanto, a restauração dos templos não proporcionou cura alguma da peste, mas apenas uma boa desculpa para os deuses.