A Cidade de Deus - Livro III 15

Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses

Que espécie de vida e de morte tiveram os reis romanos

E qual foi o fim dos próprios reis? De Rômulo, uma lenda lisonjeira nos conta que foi assumido ao céu. Mas certos historiadores romanos relatam que ele foi despedaçado pelo senado por causa de sua ferocidade, e que um homem, Júlio Próculo, foi subornado para divulgar que Rômulo lhe aparecera, e que por meio dele ordenara ao povo romano que o adorasse como deus; e que, desse modo, o povo, que começava a se ressentir da ação do senado, foi aquietado e pacificado.
Pois também ocorrera um eclipse do sol; e isto foi atribuído ao poder divino de Rômulo pela multidão ignorante, que não sabia que tal fenômeno se devia às leis fixas do curso solar: ainda que esse luto do sol pudesse antes ter sido considerado prova de que Rômulo fora morto, e de que o crime era assinalado por essa privação da luz solar; como, na verdade, foi o caso quando o Senhor foi crucificado pela crueldade e impiedade dos judeus.
Pois está suficientemente demonstrado que este último escurecimento do sol não ocorreu pelas leis naturais dos corpos celestes, porque era então a páscoa judaica, que se celebra somente na lua cheia, ao passo que os eclipses naturais do sol acontecem no último quarto da lua.
Cícero, também, mostra claramente o bastante que a apoteose de Rômulo foi imaginária e não real, quando, mesmo enquanto o elogia em uma das observações de Cipião no De Republica, diz: "Tamanha reputação ele havia adquirido que, ao desaparecer subitamente durante um eclipse do sol, supôs-se que houvesse sido assumido ao número dos deuses, o que de nenhum mortal se poderia supor a não ser daquele que tivesse a mais alta reputação de virtude." Por estas palavras, "ele desapareceu subitamente", devemos entender que foi misteriosamente eliminado pela violência ou da tempestade ou de um assalto homicida.
Pois os outros escritores deles falam não somente de um eclipse, mas também de uma súbita tempestade, que certamente ou ofereceu ocasião para o crime, ou ela mesma deu fim a Rômulo.
E de Tulo Hostílio, que foi o terceiro rei de Roma, e que ele próprio foi destruído por um raio, Cícero diz no mesmo livro que "não se supôs que ele houvesse sido divinizado por essa morte, possivelmente porque os romanos não queriam vulgarizar a elevação de que estavam certos ou persuadidos no caso de Rômulo, para que não a tornassem objeto de desprezo atribuindo-a gratuitamente a todos e a quaisquer." Em uma de suas invectivas, também, ele diz, em termos diretos: "O fundador desta cidade, Rômulo, nós o elevamos à imortalidade e à divindade celebrando benevolamente seus serviços"; dando a entender que sua divinização não foi real, mas reputada, e assim chamada por cortesia em razão de suas virtudes.
No diálogo Hortênsio, também, enquanto fala dos eclipses regulares do sol, ele diz que estes "produzem a mesma escuridão que encobriu a morte de Rômulo, a qual ocorreu durante um eclipse do sol." Aqui vedes que ele de modo algum se esquiva de falar de sua "morte", pois Cícero era mais um raciocinador do que um panegirista.
Os outros reis de Roma, também, com exceção de Numa Pompílio e Anco Márcio, que morreram de morte natural, que fins horríveis tiveram! Tulo Hostílio, o conquistador e destruidor de Alba, foi, como eu disse, consumido por um raio junto com toda a sua casa. Prisco Tarquínio foi morto pelos filhos de seu predecessor. Sérvio Túlio foi vilmente assassinado por seu genro Tarquínio, o Soberbo, que o sucedeu no trono.
Nem um parricídio tão flagrante, cometido contra o melhor rei de Roma, afastou de seus altares e santuários aqueles deuses que se dizia terem sido movidos pelo adultério de Páris a tratar a pobre Troia desse modo, e a abandoná-la ao fogo e à espada dos gregos. Pelo contrário, o próprio Tarquínio que havia assassinado foi autorizado a suceder ao sogro.
E este infame parricida, durante o reinado que assegurara por meio de assassínio, foi autorizado a triunfar em muitas guerras vitoriosas, e a construir o Capitólio com os seus despojos; entretanto, os deuses não partindo, mas permanecendo, e secundando-o, e consentindo que seu rei Júpiter presidisse e reinasse sobre eles naquele Capitólio tão esplêndido, obra de um parricida. Pois ele não construiu o Capitólio nos dias de sua inocência, para depois sofrer banimento por crimes posteriores; mas àquele reinado durante o qual construiu o Capitólio ele abriu caminho por meio de um crime contrário à natureza.
E quando ele foi depois banido pelos romanos, e proibido de entrar na cidade, não foi por causa de sua própria maldade, mas da de seu filho no caso de Lucrécia, crime perpetrado não somente sem o seu conhecimento, mas em sua ausência. Pois naquele tempo ele estava sitiando Ardéia e combatendo as batalhas de Roma; e não podemos dizer o que teria feito se tivesse tido conhecimento do crime do filho. Não obstante, embora sua opinião não tenha sido nem indagada nem averiguada, o povo despojou-o da realeza; e quando ele retornou a Roma com seu exército, este foi admitido, mas ele foi excluído, abandonado por suas tropas, e as portas se lhe fecharam na cara.
E ainda assim, depois de ter apelado aos Estados vizinhos, e atormentado os romanos com guerras calamitosas mas malsucedidas, e quando foi abandonado pelo aliado de quem mais dependia, desesperando de reaver o reino, viveu uma vida retirada e tranquila por catorze anos, conforme se relata, em Túsculo, uma cidade romana; onde envelheceu na companhia da esposa, e por fim encerrou seus dias de um modo muito mais desejável do que o de seu sogro, que perecera pela mão do genro, com a cumplicidade da própria filha, se é verdadeiro o relato.
E a este Tarquínio os romanos chamaram não o Cruel, nem o Infame, mas o Soberbo; talvez ressentindo-se o próprio orgulho deles de seus ares tirânicos. Tão pouco caso fizeram de ele haver assassinado o seu melhor rei, o próprio sogro dele, que o elegeram seu rei. Pergunto-me se não foi ainda mais criminoso da parte deles recompensar tão generosamente um tão grande criminoso.
E ainda assim não houve palavra alguma de que os deuses abandonassem os altares; a não ser, talvez, que alguém venha a dizer, em defesa dos deuses, que eles permaneceram em Roma com o propósito de punir os romanos, e não de auxiliá-los e beneficiá-los, seduzindo-os com vitórias vazias, e exaurindo-os com guerras severas.
Tal foi a vida dos romanos sob os reis durante a tão louvada época do Estado, que se estende até a expulsão de Tarquínio, o Soberbo, no ano 243, durante a qual todas aquelas vitórias, que foram compradas com tanto sangue e tantos desastres, mal estenderam o domínio de Roma vinte milhas para além da cidade; um território que de modo algum suportaria comparação com o de qualquer insignificante Estado getuliano.