A Cidade de Deus - Livro III 12

Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses

Que os romanos acrescentaram um sem-número de deuses aos introduzidos por Numa, e que sua multidão de nada lhes serviu

Mas, ainda que Pompílio tenha introduzido um ritual tão amplo, nem por isso Roma julgou conveniente contentar-se com ele. Pois o próprio Júpiter ainda não tinha o seu principal templo: foi o rei Tarquínio quem edificou o Capitólio. E Esculápio deixou Epidauro por Roma, para que nesta cidade soberana tivesse um campo mais nobre para o exercício de sua grande arte médica. Também a mãe dos deuses veio de Pessinunte, não sei de onde, sendo coisa indecorosa que, enquanto seu filho presidia na colina Capitolina, ela própria jazesse oculta na obscuridade. Mas, se ela é a mãe de todos os deuses, não apenas seguiu alguns de seus filhos a Roma, como também deixou outros para que a seguissem.
Pergunto-me, na verdade, se ela seria a mãe de Cinocéfalo, que muito tempo depois veio do Egito. Se também a deusa Febre foi sua prole, é matéria que cabe a seu neto Esculápio decidir. Mas, seja qual for sua linhagem, os deuses estrangeiros não terão, espero, a presunção de chamar de baixo nascimento uma deusa que é cidadã romana. Quem poderá contar as divindades a cujo cuidado foi confiada a guarda de Roma? Indígenas e importadas, do céu, da terra, do inferno, dos mares, das fontes, dos rios; e, como diz Varrão, deuses certos e incertos, machos e fêmeas: pois, como entre os animais, assim também entre todas as espécies de deuses existem estas distinções.
Roma, pois, gozando da proteção de tamanha nuvem de divindades, certamente poderia ter sido preservada de algumas daquelas grandes e horríveis calamidades, das quais posso mencionar apenas umas poucas. Pois, pela grande fumaça de seus altares, convocou para sua proteção, como por um fogo de sinal, uma multidão de deuses, para os quais designou e manteve templos, altares, sacrifícios e sacerdotes, e assim ofendeu o Deus verdadeiro e altíssimo, a quem somente todo este cerimonial é licitamente devido. E, de fato, ela era mais próspera quando tinha menos deuses; mas, quanto maior se tornava, tantos mais deuses pensava que devia ter, assim como o navio maior precisa de ser tripulado por uma tripulação maior.
Suponho que desesperou do número menor, sob cuja proteção passara dias comparativamente felizes, de poder defender sua grandeza. Pois, mesmo sob os reis (com exceção de Numa Pompílio, de quem falei), quão perversa contenda deve ter existido para ocasionar a morte do irmão de Rômulo!