A Cidade de Deus - Livro III 11

Livro III: as calamidades externas de Roma sofridas sob a proteção de seus próprios deuses

Da estátua de Apolo em Cumas, cujas lágrimas se supõe terem pressagiado o desastre dos gregos, a quem o deus não pôde socorrer

E é ainda esta fraqueza dos deuses que se confessa na história do Apolo de Cumas, do qual se diz que chorou durante quatro dias na guerra contra os aqueus e o rei Aristônico. E quando os áugures se alarmaram com o prodígio e haviam resolvido lançar a estátua ao mar, os anciãos de Cumas intervieram e relataram que um prodígio semelhante havia ocorrido à mesma imagem durante as guerras contra Antíoco e contra Perseu, e que, por decreto do senado, presentes haviam sido oferecidos a Apolo, porque o evento se revelara favorável aos romanos.
Convocaram-se então adivinhos que se supunha possuírem maior perícia profissional, e estes declararam que o pranto da imagem de Apolo era propício aos romanos, porque Cumas era uma colônia grega, e que Apolo lamentava (e com isso pressagiava) a aflição e a calamidade que estava prestes a abater-se sobre a sua própria terra da Grécia, de onde fora trazido. Pouco depois noticiou-se que o rei Aristônico fora derrotado e feito prisioneiro: uma derrota certamente contrária à vontade de Apolo, o que ele indicou até mesmo derramando lágrimas de sua imagem de mármore.
E isto nos mostra que, embora os versos dos poetas sejam míticos, não são de todo desprovidos de verdade, mas descrevem em estilo suficientemente apropriado os costumes dos demônios. Pois em Virgílio Diana pranteou por Camila, e Hércules chorou por Palas condenado a morrer.
Esta é talvez a razão pela qual também Numa Pompílio, quando, gozando de paz prolongada, mas sem saber nem indagar de quem a recebia, começou no seu ócio a considerar a que deuses deveria confiar a guarda e a condução de Roma, e não imaginando que o Deus verdadeiro, todo-poderoso e altíssimo cuida dos assuntos terrenos, mas lembrando-se apenas de que os deuses troianos que Eneias trouxera à Itália não tinham sido capazes de preservar nem o reino troiano nem o lavínio fundado pelo próprio Eneias, concluiu que devia prover outros deuses como guardiães dos fugitivos e auxiliadores dos fracos, e acrescentá-los àquelas divindades anteriores que ou tinham passado para Roma com Rômulo, ou quando Alba foi destruída.