A Cidade de Deus - Livro II 27
Livro II: os males morais que os deuses de Roma trouxeram ao povo antes da vinda de Cristo
Que as obscenidades das peças que os romanos consagraram para aplacar os seus deuses contribuíram grandemente para a ruína da ordem pública
Cícero, homem de peso e filósofo a seu modo, quando estava prestes a tornar-se edil, quis que os cidadãos compreendessem que, entre os demais deveres da sua magistratura, ele deveria aplacar Flora pela celebração de jogos. E esses jogos são tidos por tão mais devotos quanto mais lascivos.
Em outra passagem, e quando já era cônsul, com o Estado em grande perigo, ele diz que se haviam celebrado jogos por dez dias seguidos, e que nada fora omitido do que pudesse apaziguar os deuses: como se não fosse mais conveniente irritar os deuses pela temperança do que apaziguá-los pela devassidão, e provocar o seu ódio por uma vida honesta do que abrandá-lo por tão indecente torpeza. Pois, por mais cruel que fosse a ferocidade daqueles homens que ameaçavam o Estado, e por causa de quem os deuses estavam sendo aplacados, ela não poderia ter sido mais nociva do que a aliança de deuses que se conquistavam com os mais imundos vícios.
Para afastar o perigo que ameaçava os corpos dos homens, os deuses eram conciliados de um modo que expulsava a virtude dos seus espíritos; e os deuses não se alistavam como defensores das muralhas contra os sitiantes senão depois de haverem primeiro assaltado e saqueado a moralidade dos cidadãos.
Esta propiciação de tais divindades, propiciação tão devassa, tão impura, tão impudica, tão perversa, tão imunda, cujos atores a virtude inata e louvável dos romanos incapacitava para as honras cívicas, riscava da sua tribo, reconhecia como contaminados e tornava infames; esta propiciação, repito, tão torpe, tão detestável e alheia a todo sentimento religioso, estas fabulosas e enganadoras narrativas das ações criminosas dos deuses, estas ações escandalosas que ou eles cometeram vergonhosa e perversamente, ou mais vergonhosa e perversamente forjaram, tudo isto a cidade inteira aprendia em público, tanto pelas palavras quanto pelos gestos dos atores.
Viam que os deuses se deleitavam com a prática dessas coisas e, por isso, criam que eles queriam não somente que lhes fossem exibidas, mas também que fossem imitadas por eles próprios. Quanto, porém, àquela boa e honesta instrução de que falam, esta era dada em tal segredo, e a tão poucos (se é que de fato era dada), que mais pareciam temer que ela fosse divulgada do que receear que não fosse posta em prática.