A Cidade de Deus - Livro II 25

Livro II: os males morais que os deuses de Roma trouxeram ao povo antes da vinda de Cristo

Com quanto poder os espíritos malignos incitam os homens a ações perversas, conferindo-lhes a autoridade quase divina do próprio exemplo

Ora, quem não compreende por aqui, a menos que tenha preferido imitar tais deuses a, pela graça divina, retirar-se de sua companhia, quem não com quanto empenho esses espíritos malignos se esforçam por emprestar ao crime, por assim dizer, uma autoridade divina, valendo-se de seu exemplo? Não fica isto provado pelo fato de que foram vistos numa ampla planície da Campânia ensaiando entre si a batalha que pouco depois ali se travou, com grande derramamento de sangue, entre os exércitos de Roma? Pois a princípio ouviram-se grandes estrondos, e depois muitos relataram que haviam visto, durante alguns dias seguidos, dois exércitos em combate.
E, quando essa batalha cessou, encontraram o solo todo marcado por pegadas de homens e cavalos, tais como as que um grande conflito deixaria. Se, pois, as divindades estavam de fato lutando umas com as outras, então as guerras civis dos homens ficam suficientemente justificadas; contudo, observe-se de passagem que tais deuses belicosos hão de ser ou muito perversos ou muito miseráveis. Se, no entanto, não passava de um simulacro de combate, que pretendiam com isso senão que as guerras civis dos romanos não parecessem nenhuma perversidade, mas uma imitação dos deuses? Pois as guerras civis haviam começado, e antes disto tinham ocorrido algumas lamentáveis batalhas e execráveis massacres.
Muitos se haviam comovido com a história do soldado que, ao despojar os espólios do inimigo que matara, reconheceu no cadáver despojado o próprio irmão e, lançando profundas maldições sobre as guerras civis, ali mesmo se matou sobre o corpo do irmão. Para disfarçar a amargura de tais tragédias e atiçar ardor crescente nesta guerra monstruosa, esses demônios malignos, que eram tidos e adorados como deuses, recorreram a este plano de revelar-se em estado de guerra civil, a fim de que nenhum remorso pelos concidadãos levasse os romanos a recuar diante de tais batalhas, mas que a criminalidade humana se justificasse pelo exemplo divino.
Por um ardil semelhante, também esses espíritos malignos ordenaram que os espetáculos cênicos, dos quais falei, fossem instituídos e a eles dedicados. E nesses espetáculos as composições poéticas e as ações do drama atribuíam aos deuses tais iniquidades que qualquer um podia imitá-las sem perigo, quer cresse que os deuses houvessem realmente cometido tais coisas, quer, não o crendo, percebesse contudo que eles desejavam ardentíssimamente ser representados como tendo-as cometido.
E, para que ninguém supusesse que, ao representar os deuses lutando uns contra os outros, os poetas os haviam caluniado e lhes imputado ações indignas, os próprios deuses, para consumar o engano, confirmaram as composições dos poetas, exibindo suas próprias batalhas aos olhos dos homens, não por meio de ações nos teatros, mas em suas próprias pessoas, no campo de batalha real.
Fomos forçados a apresentar esses fatos porque seus autores não tiveram escrúpulo em dizer e escrever que a república romana havia sido arruinada pelos depravados costumes morais dos cidadãos, e que deixara de existir antes da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Ora, essa ruína eles não imputam aos seus próprios deuses, embora imputem ao nosso Cristo os males desta vida, os quais não podem arruinar os homens bons, estejam eles vivos ou mortos.
E isto fazem, ainda que nosso Cristo tenha promulgado tantos preceitos que inculcam a virtude e refreiam o vício; ao passo que seus próprios deuses nada fizeram para preservar aquela república que os servia, nem para retê-la da ruína por meio de tais preceitos, mas antes apressaram sua destruição, corrompendo-lhe a moral pelo seu pestilento exemplo. Ninguém, suponho, terá agora ousadia bastante para dizer que a república foi então arruinada por causa da partida dos deuses de cada templo, de cada santuário sagrado, como se fossem amigos da virtude e se houvessem ofendido com os vícios dos homens.
Não, demasiados presságios tirados de entranhas, augúrios e adivinhações, pelos quais eles se proclamavam jactanciosamente conhecedores antecipados dos eventos futuros e senhores da fortuna da guerra, tudo o que prova que estavam presentes. E, se de fato estivessem ausentes, jamais os romanos, nessas guerras civis, se teriam deixado arrebatar tão longe por suas próprias paixões quanto o foram pelas instigações desses deuses.